“Os governos são a prova de como os homens podem ter sucesso no ato de oprimir em proveito próprio, não importando se a opressão se volta também contra eles”. H. D. Thoreau, em A desobediência civil (1848)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Especial – Canudos - Viver e morrer em Belo Monte

O arraial de Conselheiro tinha hierarquias e personagens estratégicos para a rotina e para a guerra
     Ao fim de uma série de protestos contra os novos impostos republicanos, enfrentando a polícia baiana em vários lugarejos, Antonio Conselheiro e seus prosélitos instalam-se em Canudos em 1893. A peregrinação de duas décadas chega ao fim. Eles vão entrincheirar-se e fortificar-se no fundo do sertão, no alto das serranias, como se tivesse soado um toque de recolher. 
      As terras em que ficava Canudos não eram desertas e ali já existia um povoado assim chamado, à margem do Vaza-Barris, um rio intermitente. Os conselheiristas se estabeleceram e sobreviveram de uma parca agricultura de subsistência, plantando mandioca para o preparo de farinha e cana-de-açúcar para a fabricação de rapadura, criando cabras. Assim se fundou o Belo Monte, nome bíblico dado à cidadela que ergueram como baluarte contra a República instaurada em 1889, sobrepondo-se à Canudos preexistente. 
     Em pouco tempo abriu-se uma rua principal na praça das igrejas, que ficou conhecida como a rua das Casas Vermelhas, destacando-se do conjunto devido à cor das telhas. As duas igrejas defrontavam-se de dois lados da praça. A primeira era a de Santo Antônio ou Igreja Velha, consagrada em 1893 com festas e foguetório. A segunda, a do Bom Jesus ou Igreja Nova, de maiores proporções, não chegaria a ser terminada. A capelinha do povoado anterior passou a ser chamada de Santuário, preservando o altar e abrigando imagens de santos. Num quartinho anexo morava Conselheiro, e ali seria sepultado.
     Esse era o centro ao redor do qual, gradativamente, se ergueria a aglomeração de casebres. A construção em taipa ou pau a pique – barro reforçado com galhos – tornava a cidadela indistinguível, na mesma monotonia parda da caatinga. O conjunto, sem um mínimo de cuidados de urbanização – como arruamento, calçadas, esquinas e muito menos saneamento ou água encanada – viria a formar “um labirinto inextricável”, nas palavras de Euclides da Cunha. 
     Na vida cotidiana do arraial predominava a religião. Como de hábito no sertão e em geral no interior do país, era uma religião festiva, em contraste com a austeridade preconizada pelo líder, que não tolerava luxos ou abusos de conduta. Os habitantes organizavam suas vidas em torno de dois ofícios religiosos diários, à madrugada e à noitinha, e periodicamente assistiam aos conselhos do Peregrino, com data previamente marcada, para os quais vinha gente até de longe. Canudos tornou-se um centro de romaria, atraindo crentes para pedir audiência ao Conselheiro e fazer doações.
     À medida que a guerra se avizinha, começa a acorrer gente de todos os quadrantes da região. Multiplicam-se as cartas dos canudenses chamando parentes e amigos para virem em seu socorro. Muita gente pelo sertão abandona seus pagos para acudir Canudos, carregando família e agregados.
     Nem todos eram miseráveis no séquito: gente de posses havia se livrado de tudo para acompanhar o Peregrino. Embora não fosse uma comunidade exatamente igualitária – havendo distinção visível entre mais ricos e mais pobres, dada pela aparência das casas – preservavam-se ali traços de igualdade. O mais marcante era a inexistência de propriedade privada da terra. Quem chegasse podia erguer sua choça sem pagar nada a ninguém. Alimentos, roupas e dinheiro, recebidos em donativo pelo Conselheiro, eram repassados aos desafortunados. 
     Para que a comunidade fosse funcional, alguma estrutura era necessária. Seu Estado-Maior, por assim dizer, era a Guarda Católica. Constituída por 12 apóstolos, sobrepunha-se a tudo o mais porque formava o quadro de imediato apoio a Conselheiro. Os guardas andavam uniformizados, armados e municiados, e recebiam soldo. Revezavam-se como sentinelas defronte ao Santuário, onde ele residia. Em seguida vinha a Companhia do Bom Jesus ou Santa Companhia, bem mais numerosa, contando de 1.000 a 1.200 cabeças.  Um grupo de beatas chefiadas por uma mordoma (Benta ou Tia Benta) cuidava da administração da residência e do bem-estar do Conselheiro. Ele quase não comia. Apenas o suficiente para manter-se vivo, mas observando total abstinência.
     O arraial contava com uma professora, de modo a não descurar da educação das crianças. O próprio Conselheiro frequentara escola, sabendo ler, escrever e até rudimentos de latim. Um secretário, Leão Ramos, atendia ao líder como escriba. Havia um curandeiro, Manuel Quadrado, perito em remédios silvestres e em simpatias. E José Félix, o Taramela, servia de criado e homem de confiança, como chaveiro e guarda das igrejas. Tornou-se renomado por sua fantasia sem peias, que o levava a inventar casos mirabolantes sobre a subida aos céus de tantos canudenses mortos, que afirmava ter presenciado. 
     Como a rotina incluía a guerra, destacou-se um “chefe militar”: João Abade, encarregado supremo das operações bélicas e da Guarda Católica, chamado de Chefe do Povo e Comandante da Rua. Paralelamente, havia um “chefe civil”, Antônio Vilanova, abastado comerciante responsável pela boa ordem da comunidade. 
     Houve combatentes ilustres. Como o pernambucano Pajeú, salteador negro, famoso por sua imaginação tática ao elaborar ardis guerrilheiros. Pedrão, negro imponente e hercúleo, originário dali mesmo, da Várzea da Ema, era integrante da Guarda Católica e um dos 12 apóstolos.  O historiador José Calasans ainda o conheceu, nos anos 50, e com ele teve muitas conversas, que granjearam sua admiração. Inválido das pernas, observou certa vez: “Faz pena um homem como eu morrer sentado”. Antônio Beatinho ficou conhecido porque negociou a rendição de 300 pessoas, entre mulheres, crianças, feridos e velhos, nos últimos dias dos combates. É do resultado dessa negociação a mais famosa foto da guerra, mostrando a multidão andrajosa, doente e esquelética. Tanta abnegação foi recompensada pela degola.
     Joaquim Macambira, que já residia em Canudos antes da chegada dos conselheiristas, possuía uma fazenda nas cercanias e era dono de loja. Seu filho e xará, com um punhado de valentes e as bênçãos do pai, tentou tomar a braços o canhão alcunhado de Matadeira, pertencente ao exército, tombando morto ali mesmo. É um dos episódios mais referidos da campanha, tendo despertado a admiração geral.
     Também deixou lembranças o sineiro Timotinho, que desafiava o exército insistindo em tocar o sino da Igreja Velha todas as tardes, quando a fuzilaria das tropas inimigas se concentrava nele. Um dia, dois tiros de canhão acertaram a torre, que desmoronou, jogando o sino à distância e aniquilando o heroico sineiro.
     Dentre os muitos artesãos que labutaram na arquitetura sacra do Conselheiro – que durante as duas décadas de peregrinação capitaneou a construção ou o reparo de igrejas, cemitérios, calçadas e açudes por toda aquela região – o nome mais importante que a história reteve é o de Manuel Faustino, mestre de obras e entalhador que presidiu aos trabalhos da Igreja Nova. Antônio Fogueteiro, como a alcunha indica, fabricava fogos, a que o povo do sertão em geral, e o de Canudos em particular, era muito afeiçoado. 
     Os dois irmãos Ciriaco, os combatentes negros Manuel e José, só se tornaram conhecidos décadas após o fim da guerra. Servindo de guia em Canudos ao historiador José Calasans (1915-2001), tornaram-se fonte de preciosas informações.
     Na utopia que criaram, Antônio Conselheiro substituiu o fazendeiro, o padre e o delegado de polícia, reunindo em sua pessoa o poder das três autoridades que mandavam no sertão. Por trás de sua figura estava o esforço admirável que uma população carente de tudo desenvolveu para se organizar, resistindo à opressão e à exploração, além de inventar formas alternativas de vida em comum.
     Com a guerra, o dia a dia do arraial foi totalmente degradado. Belo Monte, cujos habitantes passavam a vida em oração e penitência para “salvar a alma”, conforme diziam, foi transformado em antevisão do Inferno. Em vez do Paraíso a que todos aspiravam, com as promessas das bem-aventuranças da pregação cristã, aguardava-os o ferro e o fogo dos canhões, o incêndio do casario e a degola indiscriminada.  

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP e autora de O império do Belo Monte. Vida e Morte de Canudos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

Saiba Mais - Bibliografia 
ARAS, José. Sangue de irmãos. Cordel. Feira de Santana, BA: EMAGRAE, 2009. 
BOMBINHO, Manuel Pedro das Dores. Canudos, história em versos – Relato inédito de testemunha ocular. Org. de Marco Antônio Villa. São Carlos: EdUFSCar, 2002.
CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Coleção Memória da Bahia. Salvador, BA: EGBA, 1997.
VILLA, Marco Antonio (Org.) Canudos, história em versos de Manuel Pedro das Dores Bombinho. (Hedra/Edufscar/Imprensa Oficial, 2002).

Saiba Mais - Música
CD Canudos (Gereba)
CD Matuto do Cocorobó (Bião de Canudos)
CDs Toques de Canudos e Do Belo Monte ao Cocorobó (Banda de Pífanos de Bendegó)

Saiba Mais – Link

Saiba Mais - Filme
Paixão e Guerra no Sertão de Canudos
No documentário de Antônio Olavo, Paixão e Guerra no Sertão de Canudos, faz um resgate da história de Canudos, principalmente, com depoimentos de parentes de Antônio Conselheiro e de filhos dos combatentes, além dos relatos de pesquisadores (José Calazans, Manoel Neto, Sérgio Guerra e Edmundo Muniz) introduzindo várias interpretações sobre os acontecimentos históricos, que são associados a um conjunto de canções e cenários que ilustram a narração do filme, na voz de José Wilker.
Direção: Antonio Olavo
Ano: 1993
Áudio: Português
Duração: 78 minutos


sábado, 13 de agosto de 2016

Relatos de um desastre anunciado

Caderno escrito por Anna de Assis revela bastidores do casamento conturbado, mais de 100 anos após a morte de Euclides da Cunha.
     “Vim para matar ou morrer”, anunciou Euclides da Cunha à soleira da porta da residência de seu maior rival, Dilermando de Assis. A ameaça antecedeu o que os jornais cariocas chamaram de “A tragédia da Piedade”, um caloroso tiroteio no subúrbio do Rio de Janeiro que resultou na morte de um dos escritores mais aclamados do Brasil. Os acontecimentos da manhã do dia 15 de agosto de 1909 findaram um matrimônio conflituoso de quase 20 anos: Euclides abraçou a morte, em defesa da honra. No dia anterior, sua esposa, Anna Emília Ribeiro, a S’Anninha, se retirara para a casa de Dilermando com o filho bastardo nos braços, após uma briga em que pedira a separação. Anna foi condenada pela opinião pública como a adúltera que provocou a tragédia, e Dilermando, o campeão de tiro que assassinou o gênio destemperado. Mas um documento descoberto recentemente mostra outras dimensões destes heróis e vilões que foram personagens até de minissérie de TV. 
     “Não venho ofender nem acusar”, justificou-se S’Anninha na primeira página do pequeno caderno em que se propunha a narrar episódios da vida conjugal com o primeiro marido. Uma vida, segundo ela, marcada por infelicidade, desgosto e humilhação. “Venho cumprir com um sagrado dever e dar desencargo à minha consciência e tranquilidade a meu espírito, dizendo que de nós três: Euclides, Dilermando e eu, três criminosos, o mais responsável sou eu. Sim! E isso porque, abrindo as portas do lar a um desconhecido de meu marido, ausente, longe, perdido no extremo norte do Brasil, abria também as do crime, fechando-as sobre a primeira vítima enlaçada e escolhida pela fatalidade”. 
     Até a sua morte, em 1951, Anna não falou publicamente sobre o ocorrido. Segundo a família, ela costumava dizer que o silêncio era sua defesa. Não se calou para sempre: deixou um testemunho que ficou guardado por mais de 100 anos numa estante em Belo Horizonte. O manuscrito intitulado O Caso do homicídio de Euclides da Cunha por Dilermando de Assis – Exposição e narrativa dos fatos feitos escrito do próprio punho da mulher da vítima estava entre as coisas de Gregório Seabra Jr. (1874-1941). Assistente do advogado Evaristo de Moraes, que defendeu Dilermando nos dois julgamentos que o absolveram por legítima defesa, em 1911, pelo assassinato de Euclides da Cunha e, em 1916, pelo do filho, Quidinho. Em maio passado, o bisneto de Seabra Jr., Luiz Henrique Oliveira, encontrou o documento e decidiu devolvê-lo à família de S’Anninha.  “Era o desejo de meu bisavô e, depois, meu pai, mas naquela época não existia internet. Ninguém podia ler, era assunto confidencial”, conta. 
     Feita a vontade dos antepassados, hoje o caderno está nas mãos de Anna Sharp, neta de S’Anninha e Dilermando, que é escritora e assumiu um compromisso com a memória da avó. Assim que terminar o livro Vozes do passado, sobre a Tragédia da Piedade, pretende doar o manuscrito à Biblioteca Nacional.  Por ora, o material está fora do alcance de pesquisadores e jornalistas, com exceção de alguns trechos, aos quais a reportagem teve acesso.  
     Sharp diz que o testemunho de S’Annninha no “diário” confirma a história contada à sua mãe, Judith Ribeiro de Assis, por sua vez, autora de Anna de Assis: História de um trágico amor (1989). Para a neta, a avó foi uma mulher à frente de seu tempo, que não aceitava a submissão ao marido, que a maltratava. Amou demais e pagou por isso. A terapeuta imagina que o documento é “a entrevista que nunca deu, contando tudo em detalhes, desde a primeira noite com Euclides. As núpcias foram um estupro, ele rasgou todas as roupas dela, chamando-a de ‘vaca’. Ela conta essa brutalidade, o ódio que ele tinha das mulheres”.
     Euclides da Cunha é retratado como um homem que tinha acessos de raiva, antes mesmo de saber que era traído. Nesses momentos de cólera, o escritor xingava a esposa, cuspia-lhe na face e a ameaçava. Em uma página, ela narra que ele “insultava-me como um alucinado, rompendo nos maiores destemperos, tomando os meus vestidos e despedaçando-os todos nas maiores ameaças”. Segundo ela, o marido “queria impor-me o amor e pretendia-o por meio dos insultos e das brutalidades!”. Em uma passagem forte, S’Anninha acusa-o de tê-la forçado a beber seu escarro de sangue que fora depositado em um balde, após uma crise de tosse tuberculosa. “Dispus-me a suportar com paciência o meu triste fardo, tratando com a estima natural e derivada convivência diária. Detestava-o, no entanto, e o temia”, escreve.
     Não há registro da guerra entre quatro paredes sem ser pelos relatos de S’Anninha – incluindo o último depoimento à polícia. Mas o caso é que a moça não escondeu a traição durante três anos, tendo engravidado duas vezes do amante. Da primeira, nasceu Mauro, que teve uma morte misteriosa, por inanição, aos 7 dias de vida. S’Anninha acusa Euclides de tê-la proibido de amamentar o bebê. Da segunda, surgiu Luiz, registrado como da Cunha, mas que o escritor chamava raivosamente de “a espiga de milho num cafezal”, devido aos cachos loiros que a criança herdou do cadete. 
     Biógrafos do escritor chegaram a supor que S’Anninha se entregou aos desejos da carne devido à ausência prolongada do marido em casa. Em dezembro de 1904, poucos anos após ter sido correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Guerra de Canudos, Euclides, autor já conhecido por Os Sertões (1902), embarcou para uma expedição à Amazônia. Só regressaria ao Rio de Janeiro em 1906, encontrando Anna Emília grávida de três meses. A própria S’Anninha se acusa: “se errei, errava porque queria errar. Tinha liberdade de ideias, de sentimentos, de amar. Portanto, não digam que foi a liberdade derivada da ausência de Euclides a causa do meu passo. Não! Não, porque sempre a tive, mesmo com a sua presença que me não tolhia”. 
     O historiador Leopoldo Bernucci, professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade da Califórnia, pondera que o caderno precisa ser analisado por especialistas. E observa que “o sexo teve uma força decisiva no jeito como S’Anninha seguia com a vida”, já que ela não pensou nas consequências desta paixão para um homem público. Segundo Bernucci, que há 20 anos estuda a poesia de Euclides da Cunha, o escritor, ao contrário da mulher com quem se casou, era pouco ligado ao amor e menos ainda à figura feminina: perdeu a mãe aos 3 anos e foi criado por parentes, já que o pai viajava sempre a trabalho. Desde jovem, outros sentimentos lhe eram mais significativos, como honra, lealdade e honestidade. “A mulher, para ele, era uma parte do protocolo social. Acredito que não teve um pendor muito forte para a relação amorosa. Ele tinha suas perturbações mentais, era muito nervoso, explosivo.
Ficava evidente no meio social e as pessoas tentavam se manter afastadas”. Sua poesia, por exemplo, apesar de romântica, era política, tinha apreço pelos ideais da Revolução Francesa. Poucas foram as vezes em que se aventurou a escrever sobre amor e, segundo o professor, quando o fazia, era de forma superficial. Para ele, “Euclides foi vítima de seu tempo e de si mesmo”.
     Mary del Priore, autora de Matar para não morrer, indica que é preciso relativizar o relato autobiográfico, principalmente neste caso, em que S’Anninha teria escrito seu depoimento logo após a morte do marido, em um momento em que era condenada fortemente pela opinião pública. A historiadora comenta que “a questão da honra masculina e a virilidade eram coisas muito importes para o homem do fim do século XIX e início do XX. Homens preferiam morrer a ter a honra questionada”. 
     A defesa da honra matou quatro pessoas. O primeiro foi Euclides da Cunha, que num acesso de raiva partiu para Piedade com uma pistola emprestada nas mãos, alvejando não só Dilermando, mas o irmão Dinoráh, jogador de futebol do Botafogo, que cometeu suicídio por complicações posteriores. Logo depois, Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, para limpar o nome da família, atacou pelas costas Dilermando, então marido de Anna Emília. Teve o mesmo destino do pai. O quarto morto seria o próprio Dilermando, que faleceu de infarto em 1951. “Ele foi o mais prejudicado, pois foi condenado a carregar nas costas a pecha de causador de um desastre do qual foi vítima. Seu erro: tinha apenas 17 anos e apaixonou-se por uma mulher bem mais velha, que sabia o peso dos passos que deu para a desonra da família”, afirma Mary del Priore. 
     A tragédia começou no altar e culminou num desastre com muitas vítimas. Como o professor Bernucci lembrou, “aquele casamento foi uma combinação que não deu certo desde o começo”. Uniu sob o mesmo teto uma mulher que preferiu amar sem se ater às convenções sociais e um homem para quem uma ideia tradicional de família era mais importante do que a própria vida.

Saiba Mais – Bibliografia
ASSIS, Judith Ribeiro de. Anna de Assis: História de um trágico amor. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2008. 
DEL PRIORE, Mary. Matar para não morrer. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 2009.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Euclides da Cunha – Autos do processo sobre sua morte. São Paulo: Terceiro nome, 2009. 

Saiba Mais – Link

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A Humanidade como Deusa

O movimento positivista brasileiro defendeu os direitos dos negros, das mulheres e dos operários
     Quem passa pela Rua Benjamin Constant, no bairro da Glória, Rio de Janeiro, encontra, à altura do número 74, um tanto afastado da calçada, um prédio de estilo neoclássico. No alto da fachada é possível ler a inscrição: “Religião da Humanidade” e, mais abaixo, os dizeres: “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim.” Embora não pareça, trata-se de uma igreja, mais precisamente, o Templo da Humanidade. O templo foi inaugurado em 1897 pela Igreja Pozitivista do Brazil. Assim mesmo, com “z”. Uma das reformas propostas pelos positivistas foi a ortográfica, que tinha o propósito de adequar a escrita do português à prosódia brasileira. Os dizeres traduzem os princípios básicos, a “fórmula sagrada”, da filosofia de Auguste Comte, pensador francês fundador do positivismo e da religião da Humanidade, autodenominado primeiro Sumo-Pontífice da Humanidade.
     Por dentro, o templo se parece muito a uma igreja católica. A nave é circundada de bustos representando figuras importantes da História da humanidade, equivalentes aos santos católicos. Na parte da frente, há um altar-mor, encimado por um grande quadro representando uma figura de mulher com um filho nos braços, de autoria do pintor Décio Vilares. Abaixo do quadro, há um busto de Auguste Comte. Acima do quadro, a palavra Humanidade. Mais acima, em italiano, um verso tirado da Divina Comédia, de Dante, referente à Virgem Maria, “Vergine-Madre, Figlia del tuo Figlio”, isto é, “Virgem-mãe, filha de teu filho”.
     Comte copiou quase tudo da Igreja Católica, arquitetura, rituais, sacerdócio, santos. Copiou, sobretudo, o culto à Virgem-Mãe. Mas introduziu uma grande alteração. Eliminou a ideia de transcendência, isto é, rejeitou a existência de um deus separado e distante da humanidade. Trouxe a religião para a Terra. O Deus para ele era a própria humanidade. O Deus era uma deusa, a Deusa Humanidade, palavra que ele grafava sempre com inicial maiúscula.
     A representação pictórica da Humanidade devia ser a figura de uma mulher de cerca de 30 anos, carregando uma criança nos braços. O rosto dessa mulher devia ser de Clotilde de Vaux, mulher por quem o filósofo se apaixonou perdidamente e sob cuja inspiração criou a nova religião. O verso de Dante, aplicado à humanidade, adquiria um sentido preciso: a humanidade é virgem, isto é, não fecundada por força externa a si mesma. A humanidade é filha de seus filhos, isto é, não foi criada por uma entidade estranha, ela gera os seres humanos e é por eles gerada. Coerentemente, os positivistas, ao se despedirem, não diziam adeus, mas adeusa. Paralelamente ao culto à humanidade, eles desenvolveram um culto à mulher, sob o argumento de que ela era superior ao homem por representar o sentimento do amor, mais valorizado que a ação e a razão, típicas do homem.
     Mas a religião era um desenvolvimento tardio no pensamento de Comte, ocorrido após seu encontro com Clotilde. O positivismo era, sobretudo, uma filosofia da História e uma teoria política. Dentro da visão evolucionista do século XIX, que incluía o darwinismo e o marxismo, Comte desenvolveu a lei dos três estados. Segundo essa lei, a humanidade passaria por uma primeira fase chamada de teológico-militar, em que o poder espiritual estava nas mãos de sacerdotes e o temporal na de militares. A seguir, entraria na segunda fase, denominada metafísica, em que o predomínio espiritual era de filósofos e o governo estaria na mão de legistas, e o regime político seria a democracia. As nações ocidentais estariam nessa fase. A terceira fase seria a positiva. Os sociólogos, isto é, os sacerdotes positivistas, controlariam o poder espiritual, e a burguesia, o poder material. O regime político nessa fase seria a ditadura republicana. A principal tarefa da ditadura republicana era garantir a liberdade espiritual e incorporar os proletários à sociedade.
     Tudo isso parece hoje um tanto estranho, merecedor, no máximo, de uma curiosidade complacente. De fato, o positivismo religioso teve pouco impacto na França, onde se originou. Mas o próprio Comte, morto em 1857, ficaria surpreso se tivesse podido testemunhar a influência que ele teve no Brasil. O único contato que teve com nosso país se deu graças a uma brasileira, Nísia Floresta Brasileira Augusta. Nísia foi uma pessoa extraordinária, pioneira da emancipação feminina entre nós. Em 1851, assistiu em Paris a uma conferência de Comte e impressionou-se com a importância que ele dava às mulheres. Trocou com ele várias cartas, mas não se converteu à nova religião. Comte achava que ela estava por demais marcada pelo racionalismo do século XVIII. Nísia foi uma das quatro mulheres a acompanhar o enterro do filósofo
     O Brasil foi o país em que o positivismo religioso teve maior influência, se levarmos em conta o número de adeptos, a criação de uma igreja e o impacto no pensamento e na política. Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul foram os principais focos dessa influência, que se exerceu, sobretudo, no período entre 1880 e 1930. Além do templo do Rio, há uma capela positivista em Porto Alegre. Inicialmente, o positivismo chegou até nós pela ação de militares, médicos e engenheiros formados na França. Em 1876 foi criada no Rio de Janeiro uma Sociedade de Simpatizantes do Positivismo, mas que só aceitava o pensamento de Comte anterior à criação da Religião da Humanidade. No ano seguinte, dois jovens membros da Sociedade, o fluminense Miguel Lemos e o maranhense Teixeira Mendes, expulsos da Escola Politécnica, foram para Paris, onde aderiram ao positivismo religioso.
     De volta ao Brasil, Miguel Lemos assumiu a direção da Sociedade Positivista e a transformou, em 1881, em Igreja Positivista do Brasil. A partir daí, começou a colocar em prática os ensinamentos de Comte. O primeiro passo foi excluir da Igreja todos os que não se enquadrassem nos dogmas. O ex-presidente da Sociedade Positivista, Joaquim Ribeiro de Mendonça, foi excluído por ser proprietário de escravos. Benjamin Constant, um dos futuros proclamadores da República, saiu por ser professor da Escola Militar. Segundo Comte, positivistas não podiam aceitar cargos públicos, sobretudo em escolas públicas de ensino superior.
     A partir do controle da Igreja, Miguel Lemos e, depois dele, seu alter-ego Teixeira Mendes, como chefes da Igreja e apóstolos da Humanidade, desenvolveram intensa atividade de proselitismo e propaganda das ideias positivistas. Publicaram centenas de folhetos e de artigos em jornais. Organizaram várias celebrações cívicas, conferências, desfiles, construíram monumentos. Nos folhetos e nos artigos de jornal – contrariando prática generalizada da época que admitia o anonimato –, os dois chefes e todos os adeptos não apenas assinavam o nome como forneciam o endereço, a data e o local de nascimento, seguindo mais uma popular regra de Comte, a de “Viver às claras”.
      Por seu comportamento, ideias e, sobretudo, suas estranhas práticas religiosas, os positivistas despertaram forte reação. Para alguns eram ridículos, para outros, fanáticos religiosos ou malucos, lunáticos alheios à realidade nacional. Mas muitas das campanhas que organizaram e das teses que defenderam, embora de fato contrárias a ideias, valores e práticas nacionais, nada tinham de malucas. Uma de suas principais campanhas foi pela abolição da escravidão. Retomando o pensamento de José Bonifácio, um de seus heróis cívicos ao lado de Tiradentes e Benjamin Constant, não só defenderam a abolição imediata como inverteram a visão, comum na época, da superioridade dos brancos.
     Para eles, a raça negra era superior à branca e à amarela por se caracterizar pelo predomínio do sentimento. Gilberto Freyre não ousaria tanto. Foram ainda mais longe, ao promoverem o culto cívico de Toussaint Louverture, o líder da revolta dos escravos haitianos. Num país em que o haitianismo, isto é, a revolta escrava, era um fantasma, exaltar “o mais eminente dos pretos” (ainda não tinham ouvido falar de correção política) era uma ousadia.
     Outra campanha, também inspirada em José Bonifácio, teve por alvo a proteção dos indígenas – outro grupo de brasileiros que, ao lado dos escravos, diziam os positivistas ser martirizado em nossa sociedade. O principal agente dessa campanha foi Cândido Mariano da Silva Rondon, criador e primeiro diretor do Serviço de Proteção aos Índios, criado em 1910. Rondon dedicou a vida à causa da proteção aos índios, buscando garantir que se integrassem à sociedade no ritmo e na maneira que eles mesmos escolhessem.
     Lutaram ainda pela proclamação da República. Republicanos, desde a época de estudantes da Politécnica, tiveram a crença reforçada pela doutrina positivista, que colocava a República como o regime próprio da fase positiva da evolução da humanidade. Como não aprovavam revoluções, insistiram com d. Pedro II para que ele se transformasse em ditador republicano. Não foram informados sobre o 15 de Novembro, mas, ao tomarem conhecimento da proclamação, dirigiram-se aos chefes do movimento insistindo em que proclamassem a ditadura republicana. Em relação à República, tiveram ainda papel importante em promover o culto de Tiradentes e a construção dos monumentos a Floriano Peixoto e Benjamin Constant no Rio de Janeiro, localizados na Cinelândia e no Campo de Santana, e a Júlio de Castilhos em Porto Alegre.
     Foi deles ainda o desenho da atual bandeira nacional, executado por Décio Vilares. Combatendo os que queriam copiar a bandeira norte-americana, defenderam o respeito à bandeira imperial, introduzindo nela algumas mudanças. A mais polêmica foi a introdução da divisa “Ordem e Progresso”, tirada de instruções de Comte. A divisa sobreviveu aos protestos e resistiu a repetidas tentativas de eliminação.
     Seguindo ainda os ensinamentos de Comte, nossos positivistas lutaram pelo que chamavam de incorporação do proletariado à sociedade moderna. Essa luta intensificou-se após a abolição e a proclamação da República e desdobrou-se em várias batalhas. Uma delas foi contra a importação de trabalhadores estrangeiros. Alegaram que os imigrantes viriam tomar os empregos dos nacionais, sobretudo dos libertos. Outra foi a defesa da greve em caso de insensibilidade dos patrões. Outra ainda foi o combate à lei de repressão à vadiagem introduzida após a proclamação do novo regime. Defendiam o direito ao não-trabalho e argumentavam que os vagabundos mais nocivos ao país eram os ricos, os burgueses, e não os pobres e mendigos. O general Manuel Rabelo, positivista, interventor em São Paulo em 1930, ganhou o apelido de cidadão-mendigo por ter ordenado em decreto que os mendigos fossem tratados como cidadãos. Finalmente, insistiram na criação de legislação trabalhista e social. Jornada de sete horas, salário justo, descanso semanal, férias, aposentadoria. Ao introduzir a legislação trabalhista depois da Revolução de 1930, Lindolfo Collor, primeiro ministro do Trabalho, justificou-a referindo-se aos ensinamentos positivistas.
     Lindolfo Collor era gaúcho e foi no Rio Grande do Sul que o positivismo teve grande influência. A constituição gaúcha de 1891 incorporou várias ideias positivistas, muitas delas em aberto conflito com a Constituição federal. O presidente do estado podia ser reeleito e decretava as leis depois de ouvidas as câmaras municipais. A assembleia legislava apenas em matéria orçamentária, a educação pública limitava-se ao ensino básico, e era permitido o exercício de qualquer profissão sem exigência de diploma.
     Os positivistas eram radicalmente contrários a revoluções, guerras e governos militares. Lembre-se que o predomínio militar representava para eles o estado mais atrasado da humanidade. Lutaram contra o serviço militar obrigatório, pela solução pacífica das questões de fronteiras com os vizinhos, pela restituição dos troféus de guerra tomados ao Paraguai e pelo perdão da dívida de guerra desse país. Seu pacifismo completava-se com um ecologismo radical. Sua principal inspiração aqui era São Francisco de Assis, o santo que chamava de irmãos e irmãs a todas as criaturas, pregava aos peixes e pássaros. Teixeira Mendes não usava sapato de couro para não ser conivente com a morte de animais. Antes de morrer, providenciou a construção de um monumento a São Francisco, localizado no Campo do Russel, no bairro da Glória. Depois de sua morte, os positivistas colocaram um busto dele perto do monumento.
     Como se vê, suas campanhas nada tinham de loucura ou lunatismo, embora contradissessem práticas e ideias vigentes. Influenciaram o debate público, a política e movimentos sociais da época, como a Revolta da Vacina. Sua influência desceu até o samba. Noel Rosa e Orestes Barbosa compuseram o samba Positivismo (clique para ouvir), que dizia: “O amor vem por princípio,/ E a ordem por base./ O progresso é que deve vir por fim./ Contrariando esta lei de Augusto Comte,/ Tu foste ser feliz longe de mim.”
     Um ponto em que nossos positivistas estavam, de fato, muito distantes da realidade brasileira era o da moral pública. Para eles, o interesse coletivo devia predominar sobre o individual. Todos, patrões e operários, eram funcionários da humanidade. Entendiam a república em seu sentido original, romano, de regime voltado para a realização do bem público. O cidadão republicano era, por definição, um cidadão virtuoso, dedicado à causa pública. Os chefes positivistas jamais aceitaram cargos públicos e não faziam qualquer concessão em matéria de moralidade pública. Repetiam a frase de José Bonifácio: “A sã política é filha da moral e da razão.” Os positivistas que ocuparam cargos públicos, como o marechal Rondon, foram sempre funcionários exemplares, às vezes para desespero das famílias, que não podiam beneficiar-se da posição do chefe.
     A nós que vivemos hoje, cem anos depois, numa República em que o público é alvo costumeiro da rapina de políticos, funcionários e empresários predadores, os positivistas parecem seres ainda mais estranhos, uns alienígenas, uns ETs.

José Murilo de Carvalho é professor titular da UFRJ

Saiba Mais – Link

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ajoelhou, tem que rezar

Nos séculos XVII e XVIII, muitos padres aproveitavam o momento da confissão para assediar sexualmente as mulheres.
     Não foi para fazer uma simples visita que Antonio Francisco de Barros procurou Manoel Martins de Carvalho, um representante da Inquisição portuguesa na Capitania de Goiás, em outubro de 1791. Mais do que isso, ele queria denunciar o padre José Correia de Queirós ao comissário do Santo Ofício por ter “solicitado” sua filha durante a desobriga da Quaresma – nesse período, isto é, nos quarenta dias entre a quarta-feira de Cinzas e o domingo de Páscoa, todos os católicos deviam cumprir a obrigação de se confessar. “Resistindo-lhe a penitente”, explicava Barros, “ele a quis violentar, com desordenado e furioso ímpeto de que resultou grande escândalo às pessoas que o presenciaram”. Os dois ficaram a sós num cômodo da casa de Antonio, e, ao ouvir os gritos de Maria Francisca, as pessoas a acudiram e encontraram o confessor “atracado na moça com tão cega fúria que lhe rasgou a saia”.
     Uma das formas de violência sexual às quais as mulheres estavam submetidas no Brasil colonial era a investida de padres, que aproveitavam o momento em que ouviam suas confissões para assediá-las, especialmente quando as penitentes revelavam os chamados “pecados da carne”. Como eram delitos cometidos somente por padres, essas práticas – denominadas solicitatio ad turpia ou, simplesmente, solicitação – nunca foram julgadas pela Justiça comum, e sim pela Justiça Eclesiástica, tendo passado, em 1599, ao foro inquisitorial.
     Por desqualificar um dos principais instrumentos da Reforma Católica, a confissão anual obrigatória, esse delito causava grande preocupação. O fato de os párocos se valerem de seu poder para saciar seus desejos lascivos comprometia o sucesso do movimento reformador inspirado pelo Concílio de Trento (1545-1563). Na primeira metade do século XVIII, os bispos brasileiros se empenharam em implantar a reforma intelectual e moral do clero, determinada pelo Concílio, que finalmente chegava às terras coloniais.
     Entre as medidas adotadas pelo episcopado para disciplinar o clero colonial estavam o controle sobre quem deveria ou não ser ordenado padre; a instituição de preleções para moralizar o clero (Conferências de Moral); o controle rigoroso sobre quem rezava missas e ouvia confissões; a criação de seminários; visitas às dioceses para identificar pecados de padres e de fiéis; e a perseguição aos solicitantes – cujo julgamento estava a cargo da Inquisição portuguesa, por meio do Tribunal de Lisboa. De acordo com a documentação inquisitorial guardada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, 503 mulheres denunciaram 425 padres por solicitação no Brasil, entre 1610 e 1810. Das 288 denúncias cujas datas foram determinadas, 216 (75%) ocorreram entre 1730 e 1760, período em que o episcopado realizou várias ações reformadoras. Em 228 delas, fica clara a intervenção de outros confessores, que perguntam às mulheres se houve assédio e as obrigam a denunciar os padres que cometeram o delito. Mas apenas 14 denúncias foram redigidas pelas solicitadas, pois, como a maioria das mulheres era analfabeta, muitos padres escreviam as denúncias para os Comissários do Santo Ofício.
     As penas estabelecidas para os padres, de acordo com o Regimento de 1640, eram a abjuração – o reconhecimento do erro –, a suspensão da ordenação por cerca de oito anos, o degredo para fora do bispado onde o delito fora praticado e um ou dois anos de prisão com obrigação de assistir a preleções e estudar a doutrina católica, além de jejuns e penitências.
     Pela quantidade de padres denunciados – que provavelmente não chegava nem perto do número dos que efetivamente cometeram o delito –, nota-se que a ameaça de punição não bastou para coibir a solicitação. Muitas vezes, as mulheres eram responsabilizadas pelo desvio de conduta dos párocos, transformados em vítimas da tentação feminina. Os solicitantes, para se defender, se valiam de representações da mulher derivadas de um modelo estabelecido pelo cristianismo: elas só podiam ser Marias ou Evas, santas ou pecadoras. Esse modelo, além de servir para classificar as mulheres, justificava as agressões àquelas que eram acusadas de falta de pudor, de virtude ou de modéstia, identificadas com Eva.
     No caso do padre José Correia de Queirós, um ano depois de ter sido acusado, ele escreveu uma carta ao mesmo Comissário que recebera a denúncia, dando a sua versão dos fatos. Ele contou que fora desobrigar na casa de Antônio Francisco de Barros – porque ele morava longe –, e que lá “se achava uma mulher casada a qual vivia com bastante lassidão nos costumes contra a castidade”. Assim, “pela fragilidade humana, e com alguma inadvertência”, cometeu a “ação desonesta” de tocar em suas “partes pudendas”. Ao cair em si, ele admitiu ter sofrido um “sumo pesar”, e só demorou a se confessar diante do Santo Ofício por viver em um lugar distante e se encontrar enfermo.
     O problema é que o modelo de comportamento feminino ideal, representado por Maria, era incompatível com a vida cotidiana daquelas que trabalhavam para sobreviver, sem a tutela masculina. Só poderia ser aplicado às mulheres abastadas, que viviam reclusas em suas propriedades e dependiam de seus pais ou maridos. Esse padrão de identidade feminina, vindo da Europa, tornou-se mais complexo na Colônia, pelo peso que a etnia adquiria numa sociedade em que havia a escravização de índios e africanos. Índias, negras e outras mulheres pobres eram alvos fáceis para as investidas dos solicitantes, embora as de melhor condição social não estivessem totalmente imunes.
     Outro exemplo aconteceu com a parda forra Ana Maria dos Serafins. O confessor não mediu palavras para tentar obter o que queria, mas ela repeliu as insinuações do padre Bento de Souza Alvares alegando que viera “lavar-se dos seus pecados dos quais se arrependia”. O vigário insistiu para que Ana Maria “deixasse o arrependimento para a hora da morte”, pois “tinha maiores culpas”, e “se animou a querer-lhe levantar a saia”, aproveitando o fato de a igreja estar vazia. Desvencilhando-se, a mulher fugiu para a rua. O padre a seguiu, tornou a pegá-la, e tentou levantar sua saia enquanto ambos desciam a ladeira do Convento de São Francisco do Rio de Janeiro, no qual ficava a Capela dos terceiros, onde Ana Maria fora se confessar.
     Os casos de abusos são incontáveis. Frei Euzébio Xavier de Gouveia chegou a dizer à escrava negra Joana que tanto fazia “casar donzela quanto já corrupta”, enquanto agarrava seus seios. Na Bahia, o padre Pedro da Silva costumava perguntar às penitentes se elas tinham “vaso grande ou pequeno”. Já idoso, ele foi descrito por uma das solicitadas como sendo cego e desdentado. Por não ter acesso fácil às mulheres, ele se saciava, perversamente, fazendo-lhes perguntas constrangedoras.
     Quando se apresentou ao comissário do Santo Ofício de Pernambuco, em 1760, para confessar o abuso de seis mulheres, o padre José Pereira Afonso se explicou dizendo que os confessores não solicitavam mulheres na confissão e só deviam “cuidar e fugir para elas os não perseguir e solicitar a eles”. O religioso ainda afirmou que as coisas não eram assim na Europa, “por viverem as mulheres com mais recato e não haver tanta solidão, nem escravos que no Brasil são a perdição das casas”.
     O capelão padre Bento Ferreira foi outro religioso que passou das medidas. Assim que ouviu a confissão de Thereza Antônia, preta forra, em 1740, na vila de São João Del Rey, em Minas Gerais, ele lhe disse, antes de absolvê-la, que “lhe queria dar um bocado”, ou seja, ter com ela atos desonestos, na linguagem das negras da Colônia, como explica o próprio documento. Thereza assentiu, e o padre lhe pediu que passasse a noite com ele. A escrava disse que não podia, “mas que tornaria em outra ocasião”. Padre Bento então se levantou, sem lhe dar a absolvição, e foi rezar a missa. Depois da cerimônia, deu o certificado de desobriga a todos os presentes, menos a Thereza, que chamou à sacristia, levando consigo o tinteiro. A mulher pensou que iria receber a certidão, da qual necessitava para provar que estava desobrigada, mas, em vez disso, o confessor a incitou à cópula carnal, praticada ali mesmo.
     A obrigatoriedade anual da confissão durante a Quaresma – determinada pelo IV Concílio de Latrão (1215) – permitia que o clero tivesse um controle constante sobre o comportamento de seu rebanho. Os fiéis também eram estimulados a se confessar pela necessidade de absolvição dos pecados para a salvação da alma. Ao profanar esse importante sacramento, a solicitação comprometia o sucesso do movimento reformador inspirado pelo Concílio de Trento. Era preciso, antes de tudo, fazer com que os padres do século XVIII abandonassem valores, hábitos e comportamentos que iam contra a moralização de costumes pregada até hoje pela Igreja, mas nem sempre praticada.

Lana Lage da Gama Lima é professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e autora da tese “A confissão pelo avesso: o crime de solicitação no Brasil Colonial” (USP, 1990).

Saiba Mais - Bibliografia
GORENSTEIN, LINA e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Ensaios sobre a Intolerância – Inquisição, marranismo e anti-semitismo. São Paulo: Editora Humanitas-FFLCH/USP, 2002.
VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados – Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1989.
SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz – Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

Saiba Mais - Link

Saiba Mais - Filme
Desmundo
Filme de época (por volta de 1570) e falado em português arcaico do século 16, é todo legendado no idioma moderno.
Baseado no livro da romancista Ana Miranda e dirigido pelo paulista Alain Fresnot, a narrativa traça um retrato do Brasil colonial visto sob o ponto de vista feminino: no caso, o de Oribela (Simone Spoladore).
Jovem portuguesa, Oribela veio para o Brasil junto com um grupo de órfãs trazidas para cá pelo projeto da monarquia lusitana de oferecer esposas brancas aos colonos, que há tempos se miscigenavam com as índias.
Na época, essa era uma situação completamente desfavorável às mulheres, mesmo às europeias. Afinal, naqueles dias elas valiam menos do que as mulas e tinham menos direito a exercer a própria vontade. Como gado, seus dentes e dotes físicos eram examinados e elas eram arrematadas como num leilão.
Muito devota, mas disposta a tentar algum tipo de escolha, Oribela rejeita com uma cusparada o primeiro e bruto pretendente (Cacá Rosset). Com Francisco (Osmar Prado), ela já é mais conivente, ainda mais que ele se comporta, em princípio, com mais civilidade.
Instalada na remota propriedade do marido com uma sogra estranha (Berta Zemel), uma cunhada deficiente e uma clara insinuação de incesto, Oribela tenta a fuga com a ajuda de um comerciante judeu, Ximeno (Caco Ciocler).
Direção: Alain Fresnot
Duração: 99 min
Ano: 2003
Áudio: Português + Legenda

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Rochas de livres prazeres

Ao registrarem práticas sexuais variadas em suas pinturas rupestres, nossos ancestrais demonstram que lidavam naturalmente com o corpo e os desejos.
     Mais de 1.300 sítios arqueológicos já foram encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí. Desses, 900 contêm cenas rupestres, com representações dos afazeres cotidianos dos grupos que ali viveram no mínimo há 12 mil anos atrás. Gravadas nas rochas, há cenas de caçadas, lutas sociais, rituais e relações humanas diversas. Inclusive as sexuais.
     Entre as representações rupestres aparecem figuras humanas exibindo-se individualmente, com destaque para seus falos. Os caçadores e coletores praticavam suas relações sexuais, parece-nos, de forma um tanto livre de certos padrões ditos morais, de acordo com as representações vistas nas cenas rupestres. As cenas mostram diversas posições de sexo, envolvendo duplas, trios ou grupos maiores numa mesma ação. Há também ocasiões mais “românticas”, como a representação de um beijo. Tais sentimentos e desejos não são privilégios exclusivos dos corpos e mentes de hoje. Nossos ancestrais também os vivenciaram, como sugerem os vestígios que deixaram.
     Infelizmente ainda existem manuais didáticos escolares que consideram a História do Brasil apenas a partir de 1500, com a chegada dos portugueses. Em alguns casos, para se remeter ao período anterior, fala-se de “pré-história brasileira”, numa abordagem claramente eurocêntrica, que dá pouco ou nenhum relevo à longa experiência dos povos presentes no continente. Os homens e as mulheres da suposta “pré-história” viveriam em cavernas, vestidos com peles de animais, em alguns casos cobrindo aquelas que consideramos suas “partes íntimas”. É como se estivessem fora da história, num período que seria o prelúdio do desenvolvimento humano, no qual não existiria nada a não ser uma luta instintiva pela sobrevivência.
     Estudos desenvolvidos por arqueólogos brasileiros como Niède Guidon subvertem a concepção de “pré-história”. Ao focalizar a presença humana no continente e trazer ao debate a produção material e cultural dos povos ancestrais – com base em análise de suas artes rupestres, cerâmicas, instrumentos musicais, ossadas e códigos de DNA, entre outros vestígios – eles apontam para a compreensão de outra História. Quem sabe a História Antiga do Brasil, ou a História Ancestral do Brasil.
     Há 200 mil anos, os nossos ancestrais tinham as mesmas condições físicas e mentais que compartilhamos hoje, e empregavam os meios à sua disposição para realizar diferentes ações sociais, culturais, políticas e interpessoais, assim como fazemos atualmente. Sua vida social era mais elaborada do que se imaginava. Demonstram grande desenvoltura para o lazer, o prazer e para práticas hoje consideradas saudáveis, como caminhar, dançar e brincar. 
     As muitas cenas com representações do sexo nas pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara revelam que a sexualidade não era algo reprimido ou escondido, pois todos os membros dos grupos de caçadores e coletores da época tinham acesso àquelas cenas, feitas por eles mesmos ou por seus ancestrais. É possível identificar representações dos órgãos genitais femininos (vulva) e masculinos (falos eretos). Quando há representações de mãos voltadas para trás, são sinalizações de cenas femininas ou com mulheres. 
     O sexo, para aqueles grupos, devia ser considerado uma prática natural e prazerosa. Dificilmente estava submetido a excessivas restrições ou tabus religiosos. O mesmo se observa entre outros grupos de caçadores e coletores, inclusive os atuais. A sexualidade é compreendida de modo diferente por essas sociedades. Pintores antigos, tanto brasileiros quanto africanos, mostravam as cópulas humanas em posições variadas e com certo realismo. Nas pinturas rupestres africanas, especialmente na região abaixo do deserto do Saara, há uma série de representações de homens mascarados com seus falos eretos prestes a penetrarem as mulheres já em posição ginecológica. 
     A sexualidade é uma temática bastante recorrente nas cenas de pinturas rupestres da Tradição Nordeste, uma das tradições estilísticas de pinturas da região piauiense não somente na Serra da Capivara, mas também em outros locais do país, como no interior da Bahia e no Rio Grande do Norte. Na região de sua abrangência, inclusive em São Raimundo Nonato, além das representações do sexo entre humanos, há cenas de sexo com animais, o que chamamos atualmente de “zoofilia”. Cenas que aparecem também nos vestígios de outros povos do mundo.
     É válido considerar que nas cenas de “excitação” coletiva os falos representavam “espadas”, ou seja, simbolizavam poderio e força. Já a cena do beijo sugere que a boca se desenvolveu como importante zona erótica ao longo de toda a vida humana. 
     Filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau consideravam “selvagens” os homens das terras distantes da África, América e Ásia. Assim, segundo Hobbes, eles seriam incapazes de construir laços de amor, além de levarem uma vida sem ofício ou arte. Essa ideia se perpetuou através dos escritos de muitos ocidentais, mas já se comprovou que havia sim trabalho, amor e vida social entre esses grupos ancestrais, como evidenciam as pinturas e outros vestígios deixados pelos primeiros ocupantes das terras brasilis.
     Nas pinturas rupestres da Serra da Capivara há cenas de danças feitas com tamanha desenvoltura plástica que demonstram certa sensualidade. Algumas cenas de sexo grupal, com animais ou ainda, supostamente, com humanos “menores”, nos remetem a um período sem as restrições morais e éticas da tradição religiosa judaico-cristã. Um período em que os ritmos e as energias da vida humana se harmonizavam com os da natureza.

Michel Justamand é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) de Benjamin Constant e autor de A mulher rupestre. Representações do feminino nas cenas rupestres de São Raimundo Nonato – PI (Alexa Cultural, 2014).

Saiba mais – Bibliografia
 GUIDON, Niède. “As ocupações pré-históricas do Brasil”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
MARTIN, Gabriela. “A tradição nordeste na arte rupestre do Brasil”. Revista Clio, nº 14. Série Arqueológica. Anais da X Reunião Científica da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Recife: EDUFPE, 2000.
PESSIS, Anne-Marie. Imagens da Pré-História. Parque Nacional Serra da Capivara. São Raimundo Nonato: FUMDHAM, 2003.
PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Cia. das Letras, 2004

Saiba mais – link

Saiba mais – Filmes
A Guerra do Fogo
O filme retrata um período na pré-história e dois grupos de hominídeos. O primeiro, que quase não se diferencia dos macacos por não ter fala e se comunicar através de gestos e grunhidos, é pouco evoluído e acha que o fogo é algo sobrenatural por não dominarem ainda a técnica de produzi-lo; o outro grupo é mais evoluído e tem uma comunicação e hábitos mais complexos, como a habilidade de fazer o fogo. Esses dois grupos entram em contato quando o fogo da primeira tribo é apagado em uma guerra com uma tribo de hominídeos mais primitivos, que disputam a posse do fogo e do território. Noah, Gaw e Amoukar (membros do primeiro grupo) são destacados então para uma jornada para trazer uma nova chama acesa para a tribo. Nesse caminho deparam-se com um grupo de canibais, e resgatam de lá Ika, uma mulher pertencente ao grupo mais evoluído. Do contato com essa mulher, os três caçadores do fogo aprendem muitas coisas novas, já que ela domina um idioma muito mais elaborado que o deles, assim como domina também a técnica de produção do fogo. Levados por diversas circunstâncias a um encontro com a tribo de Ika, percebem que há uma maneira diferente de viver; observam as diferentes formas de linguagem, o sorriso, a construções de cabanas, pintura corporais, o uso de novas ferramentas, e, um modo diferente de reprodução.
Direção: Jean Jacques Annaud
Duração: 100 minutos
Ano: 1981
Áudio: Legendado

domingo, 3 de julho de 2016

O ladrão de sementes

Um aventureiro ajudou a transformar a economia global, passando o monopólio mundial da borracha para as mãos da Inglaterra.
     Na história da geopolítica internacional, costumam figurar apenas os nomes dos grandes governantes e diplomatas. Henry Wickham não foi um deles. Ainda assim, esse personagem ajudou a transformar a produção mundial da borracha, influenciando as relações internacionais e a hegemonia econômica do século XX.
     Ao trocar um pneu de carro ou vestir uma capa de chuva, estamos lidando com alguns dos mais de 50 mil derivados da borracha, matéria-prima absolutamente indispensável na cadeia produtiva de quase todos os setores econômicos. Para atingir esse sucesso, iniciado na esteira da revolução industrial, a borracha trilhou percursos tortuosos. Há pouco mais de cem anos, o monopólio da produção concentrava-se na Amazônia, região responsável por fornecer quase 100% da demanda global na época – principalmente para os países industrializados que, por sua vez, buscavam uma maneira de neutralizar esse domínio.
     Foram cinco décadas de hegemonia amazônica antes daquele empreendimento borracheiro desmoronar, superado pela crescente produção no Sudeste asiático. Na ordem do dia, então, passaram a ser debatidas questões sobre a soberania nacional, em particular a proteção do patrimônio biológico, e uma reavaliação do modelo de desenvolvimento praticado pelo Brasil, que ao longo da história sempre se valera do extrativismo e da exportação de produtos naturais – café, minérios, açúcar, borracha. 
     Wickham teve papel ativo nessa história. Ele foi responsável pelo contrabando de 70 mil sementes de seringueiras, parte das quais seriam plantadas com êxito no Jardim Botânico Real de Londres (Kew Gardens) e depois transferidas, em mudas, para as colônias britânicas no Sudeste asiático.
     Henry Alexander Wickham nasceu em 1846, ao norte de Londres. Aos 20 anos, viajou para a Nicarágua à procura de plumas para fornecer à chapelaria de sua mãe. Foi a primeira viagem de muitas que faria à América Latina, anotando em um diário suas impressões sobre a região. Nesse diário, ele já levantava a possibilidade de um empreendimento borracheiro. O império britânico estava em expansão: o reinado da rainha Vitória (1837-1901) estabeleceu uma política de crescimento econômico, colonização e aumento da presença militar em seus domínios além-mar. Esse cenário representava, para Wickham e outros cidadãos ingleses, uma crescente chance de almejar fama e fortuna em empreendimentos e descobertas, com ou sem o aval do governo britânico. 
     A borracha era necessária à revolução industrial, que estava a todo vapor na Inglaterra. O então diretor de Kew Gardens, Joseph Hooker, tomou conhecimento do diário do jovem Henry. Em Rough Notes, Wickham já discursava sobre os limites e as possibilidades de produzir borracha em massa. Hooker ofereceu a ele 10 libras para cada mil sementes de seringueira coletadas. Mesmo sem garantia ou remuneração adiantada, Wickham se animou com a proposta e convocou esposa, mãe, irmã e irmão para se engajarem em um empreendimento nas cercanias de Santarém, Pará, onde estabelecera um sítio. Para alguns de sua família o destino não foi feliz: sua mãe, sua irmã e a sogra do irmão faleceram, provavelmente por doenças tropicais, sucumbindo ao clima amazônico.
     As perdas familiares não afastaram Wickham de seu projeto. Em troca de migalhas, indígenas e caboclos o ajudaram a coletar, próximo ao rio Tapajós, as almejadas sementes. Elas eram acondicionadas em uma embalagem especial e sigilosa – para não estragarem durante a longa viagem marítima e para não serem detectadas pelas autoridades brasileiras. O governo havia estabelecido fiscalizações alfandegárias salpicadas pela Amazônia. Wickham escapou de uma inspeção mais rigorosa graças ao então cônsul inglês na região, que conseguiu liberar o barco Amazonas, da linha Liverpool-Manaus. Para a sorte de Wickham, a embarcação sofrera uma desventura ao ter sua carga original roubada, dando assim espaço para o envio das sementes à Inglaterra.
     No final do século XIX, a Amazônia mal sabia que a festa da borracha estava chegando ao fim. Manaus usufruía de uma vida de dar inveja até aos europeus que gozavam seu período Belle Époque. A opulência de Manaus ostentava o Teatro Amazonas, calçadas alinhadas, parques chiques, bonde elétrico e outros apetrechos semelhantes aos das cidades europeias. Os barões da borracha tinham vida tão luxuosa que mandavam suas roupas para a Europa a fim de serem lavadas.
     Graças as 70 mil sementes traficadas por Wickham, as colônias britânicas da Ásia em pouco tempo teriam suas plantações. E em 1919 seriam responsáveis por 95% da demanda global de borracha. A Amazônia não teve fôlego para enfrentar a competição. Seu esquema de extração e comercialização da borracha – à base de patrões, regatões, isto é, comerciantes da Amazônia que praticavam preços abusivos, e trabalho semiescravo – explorava e endividava os seringueiros, responsáveis pela extração desse recurso natural. Os preços inflacionados inviabilizavam o modelo extrativista diante do capitalismo mais eficiente do império britânico.
     Embora também se valessem da exploração de mão de obra barata imposta aos súditos colonizados, os ingleses se diferenciavam dos brasileiros pela rapidez e expansão do processo produtivo. Afinal, eram os líderes da revolução industrial. Seus métodos alcançavam grande produtividade e, por consequência, preços baixos. Em seu habitat natural, a seringueira tem uma ocorrência de aproximadamente um espécime por hectare (o tamanho de um campo de futebol). Na Ásia, foi cultivada em fileiras, concentrada em plantações. Os seringais britânicos vingaram, produzindo látex em abundância. 
     Embora não fosse bem sucedido na maioria de seus negócios, Wickham não desanimou e viu na borracha uma oportunidade rara de enriquecer. Diante do sucesso da empreitada britânica na Ásia, reivindicou seus merecidos louros. Não teve a pompa que esperava. O reconhecimento tardou quase quatro décadas, mas veio em vida: em 1920, foi condecorado “Sir” pelo Rei George V. Nada muito além disso. Segundo algumas fontes, ele recebeu uma mísera pensão e alguns brindes. Sua esposa, Violet, que ficara ao seu lado por muito tempo, abandonou-o. Os botânicos profissionais de Kew Gardens o consideravam um amador aventureiro e desprezaram seus esforços.
     Após a Amazônia, seu espírito desnorteado e aventureiro levou-o para a Nova Guiné e a Austrália, onde sofreu outro fracasso. Nunca chegou a se estabelecer economicamente em definitivo. Morreu em 1928, talvez sem se dar conta de que integrara, de fato, uma enorme lista de “peões” sem muita expressão nos investimentos britânicos além-mar. Foi mais um personagem secundário de um longo processo de troca e roubo de espécies biológicas para fins lucrativos, que remonta à era colonial e existe ainda hoje. Para o historiador norte-americano Alfred Cosby, trata-se de imperialismo ecológico, que atualmente assume a forma de produtos farmacêuticos, grande parte deles derivados de plantas. A mesma Amazônia que revelou ao mundo os potenciais da borracha abriga em sua rica biodiversidade outras incontáveis (e desconhecidas) matérias-primas, que podem interessar a diversas indústrias. Continuam em voga questões de soberania nacional e, mais recentemente, alguns grupos indígenas vêm alcançando o reconhecimento de seu direito ao uso do patrimônio natural que manejam há milênios. O império da vez são as megacorporações internacionais.
     Vilão, cavaleiro em missão nobre a serviço da coroa britânica, oportunista? Seja como for, Wickham foi peça-chave de um processo histórico que se enquadra na espoliação colonial e na globalização. Suas ações, ainda hoje, renderiam grande polêmica.

Louis Carlos Forline é professor de antropologia da Universidade de Nevada e pesquisador visitante no Museu Paraense Emílio Goeldi.

Saiba Mais - Bibliografia
SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A. Queiroz, 1980.
WEINSTEIN, Bárbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência. São Paulo: Edusp, 1993.
BENTES, Rosineide. A apropriação ecológica de seringais na Amazônia e a advocacia das Rubber PlantationsRevista de História, 151 (2), p. 115-150, 2004.
LEONARDI, Victor. Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira. Brasília: Paralelo 15, Editora Universidade de Brasília, 1999.

Saiba Mais – Link