“Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz” (O Teatro Mágico)

domingo, 20 de maio de 2012

História Medieval/Complemento - Alta Idade Média séculos V-X

Ecos do passado
A Idade Média está muito mais presente no nosso dia-a-dia do que imaginamos
Hilário Franco Júnior*  


     [...] Nossas raízes são medievais, percebamos ou não este fato.
     Pensemos num dia comum de uma pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo (que os romanos conheciam, mas não usavam), veste calças compridas (antes, gregos e romanos usavam túnica, peça inteiriça, longa, que cobria todo o corpo), passa um cinto fechado com fivela (antes ele era amarrado). A seguir, põe uma camisa e faz um gesto simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então ela põe os óculos (criados em torno de 1285, provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de fins do século XIV) para ver como está o tempo.
     Ao chegar na escola ou no trabalho, ela consulta um calendário e verifica quando será, digamos, a Páscoa [...]. Assim fazendo, ela pratica sem perceber alguns ensinamentos medievais. Foi um monge do século VI que estabeleceu o sistema de contar os anos a partir do nascimento de Cristo. Essa data (25 de dezembro) e o dia de Páscoa (variável) também foram estabelecidos pelos homens da Idade Média. Mais ainda, ao escrever [...] a data, usamos os chamados algarismos arábicos, inventados na Índia e levados pelos árabes para a Europa, onde foram aperfeiçoados e difundidos desde o começo do século XIII. O uso desses algarismos permitiu progressos tanto nos cálculos cotidianos quanto na matemática, por serem bem mais flexíveis que os algarismos romanos anteriormente utilizados.
     Para começar a trabalhar, a pessoa possivelmente abrirá um livro para procurar alguma informação, e assim homenageará de novo a Idade Média, época em que surgiu a ideia de substituir o incômodo rolo no qual os romanos escreviam. Com este, quando se queria localizar certa passagem do texto, era preciso desenrolar metros de folhas coladas umas nas outras. Além disso, o rolo desperdiçava material e espaço, pois nele se escrevia apenas de um lado das folhas. O formato bem mais interessante do livro ficou ainda melhor com a invenção da imprensa, em meados do século XV, que permitiu multiplicar os exemplares e assim barateá-los. Tendo encontrado o que queria, a pessoa talvez pegue uma folha em branco para anotar e, outra vez, faz isso graças aos medievais. Deles recebemos o papel, inventado anteriormente na China, mas popularizado na Europa a partir do século XII.  Mesmo ao passar suas ideias para o computador, a pessoa não abandona a herança medieval. O formato das letras que ali aparecem, assim como em jornais, revistas, livros e na nossa caligrafia, foi criado por monges da época de Carlos Magno.
     Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sendo hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra novidade medieval! Na Antiguidade, as pessoas comiam recostadas numa espécie de sofá, apoiadas sobre o antebraço. Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada aproximadamente em 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no XIV). Terminada a refeição, a pessoa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escrever.
     À noite, enfim, a pessoa vai à universidade, instituição que em pleno século XXI ainda guarda as características básicas do século XII, quando surgiu. As aulas, com frequência, são dadas a partir de um texto que é explicado pelo professor e depois debatido pelos alunos. Alguns deles recebem um auxílio financeiro para poderem estudar, como no colégio fundado pelo cônego Roberto de Sorbon (1201-1274) e que se tornaria o centro da Universidade de Paris. Depois de mais um dia de trabalho e estudo, algumas pessoas querem relaxar um pouco e passam na casa de amigos para jogar cartas, divertimento criado em fins do século XIV, como lembram os desenhos dos naipes e a existência de reis, rainhas e valetes. Outros preferem manter a mente bem ativa e vão praticar xadrez, jogo muito apreciado pela nobreza feudal, daí a presença de peças como os bispos, as torres e as rainhas.
     Durante todas essas atividades, pensamos, falamos, lemos e escrevemos em português, sem, na maioria das vezes, nos darmos conta de que esse elemento central do patrimônio cultural brasileiro vem da Idade Média. E não só porque a nossa língua nasceu em Portugal medieval. Como qualquer língua, com o passar do tempo o português falado na sua terra de origem foi se alterando bastante. Muitas características do idioma falado hoje em dia em Portugal – inclusive o que chamamos de sotaque daquele povo – são do século XIX. Mas no Brasil aquele idioma foi introduzido no século XVI por colonos que falavam da mesma forma que cem ou duzentos anos antes, isto é, como em Portugal medieval. Além disso, sendo o Brasil muito vasto e muito distante da metrópole portuguesa, as lentas transformações na língua demoravam mais para chegar aqui. Em resumo, falamos hoje um português mais parecido com o da Idade Média do que com o de Portugal moderno.
     Estudos recentes mostraram que idosos analfabetos do interior de Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo usavam, em fins do século XX, formas do português dos séculos XIII-XVI. Essas pessoas ainda falam esmolna em vez de “esmola”, pessuir e não “possuir”, despois no lugar de “depois”, preguntar para dizer “perguntar”. Contudo, não se trata propriamente de erros, e sim de exemplos de manutenção de formas antigas, levadas àqueles locais pelos bandeirantes nos séculos XVI e XVII. Devido ao isolamento e à pobreza daquelas regiões, esse modo de falar prolongou-se pelos séculos seguintes.
     Basta uma rápida olhada em qualquer aglomerado humano no Brasil, seja no metrô, num estádio de futebol ou simplesmente nas ruas, para se constatar o que todos sabemos: a população brasileira tem alto grau de mestiçagem. Nada estranho, já que a terra era habitada por diferentes tribos indígenas quando os portugueses aqui chegaram, e logo foram introduzidos muitos escravos africanos. O que se ignora com frequência, porém, é que se os dominadores portugueses aceitaram com facilidade a mestiçagem, é porque ela fazia parte da sua prática social havia muito tempo. Eles resultavam da mistura entre celtas, romanos, germanos, berberes (população do norte africano), árabes, judeus e negros. Importantes historiadores já afirmaram que, pelo menos até o século XIV, os mouros não devem ser considerados uma etnia, e sim uma minoria religiosa, porque, em termos raciais, não havia diferença entre portugueses cristãos e portugueses muçulmanos. Portanto, os portugueses já eram mestiços ao chegarem à América, o que facilitou a mistura racial na colônia.
     Estudar História – de qualquer época e de qualquer local – não deve ser tarefa utilitarista, não deve “servir” para alguma coisa específica. A função de seu estudo é mais ampla e importante; é desenvolver o espírito crítico, é exercitar a cidadania. Ninguém pode atingir plenamente a maturidade sem conhecer a própria história, e isso inclui, como não poderia deixar de ser, as fases mais recuadas do nosso passado. Assim, estudar História Medieval é tão legítimo quanto optar por qualquer outro período. Mas não se deve, é claro, desprezar pedagogicamente a relação existente entre a realidade estudada e a realidade do estudante. Neste sentido, pode ser estimulante mostrar que, mesmo no Brasil, a Idade Média, de certa forma, continua viva.
*Hilário Franco Júnior é professor da Universidade de São Paulo e autor de A Idade Média, nascimento do Ocidente (Brasiliense, 2006) e de “Raízes medievais do Brasil” (Revista USP, 2008).

Saiba Mais - Livros:
FRUGONI, Chiara. Invenções da Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
GIMPEL, Jean. A Revolução Industrial da Idade Média. Lisboa: Publicações Europa-América, 1976.
LE GOFF, Jacques. A Idade Média explicada aos meus filhos. Rio de Janeiro: Agir, 2007.

Visões da Idade Média
     Os textos a seguir tratam das controvérsias em tomo do imaginário da Idade Média que, ao longo do tempo, foi interpretado de diferentes maneiras pela historiografia.
I
     "A imagem tradicional da Idade Média, elaborada pelos humanistas e relançada pelos iluministas [...] girava em torno do princípio dos 'séculos obscuros', caracterizados por uma profunda regressão da civilização e pelo retorno a condições de vida de tipo arcaico: uma economia de subsistência, uma sociedade regulada pela dependência e pela fidelidade a formas de quase escravidão, uma técnica bloqueada, uma elaboração cultural repetitiva e reduzida, um tipo de relações internacionais rarefeitas e inseguras, porém marcadas também por migrações de povos, por conflitos de etnias, por explosões de pauperismo.
     Certamente existe nessa imagem algo de verdadeiro, mas existe também um lugar-comum que não resistiu à revisão historiográfica, ativada já a partir do romantismo. A Idade Média não é absolutamente a época do meio entre dois momentos altos de desenvolvimento da civilização: o mundo antigo e o mundo moderno. Foi sobretudo a época da formação da Europa cristã e da gestação dos pré-requisitos do homem moderno (formação da consciência individual; do empenho produtivo; da identidade supranacional etc.), como também um modelo de sociedade orgânica [...], assim como uma fase histórica que se coagulou em torno dos princípios da religião, caracterizando de modo particular toda esta longa época: conferindo-lhe conotações de dramaticidade e de tensão, mas também aberturas proféticas e fragmentos utópicos que nos apresentam uma imagem mais complexa e mais rica da Idade Média; e também uma identidade mais próxima de nós e de nossa sensibilidade."
(CAMBI, Franco. História da pedagogia. São Paulo: Editora Unesp, 1999. p. 141-142.)

II
     "Faz agora dois séculos, ao menos, que a Idade Média é balançada de um extremo a outro, sombrio contraponto dos partidários da modernidade, ingênuo refúgio daqueles a quem o presente moderno horroriza. Existe, de resto, um ponto comum entre a idealização romântica e os sarcasmos modernistas: sendo a Idade Média o inverso do mundo moderno (o que é inegável), a visão que se oferece dela é inteiramente determinada pelo julgamento feito sobre o presente. É assim que uns a exaltam para melhor criticar sua própria realidade, enquanto outros a denigrem para melhor valorizar os progressos de seu
tempo. [...]
     Mas o essencial é escapar da caricatura sinistra tanto quanto da idealização: 'nem legenda negra, nem legenda rosa', escreveu Jacques Le Goff. A Idade Média não é nem o buraco negro da história ocidental nem o paraíso perdido."
(BASCHET, Jérôme. A civilização feudal: do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006. p. 23-24.)

A origem dos germanos
     A origem dos germanos é incerta. Alguns estudiosos defendem que eles eram nativos da Rússia oriental. Outros consideram que eram originários das regiões escandinavas e bálticas. Há ainda aqueles que identificam nos germanos traços da cultura céltica que lhes transmitiram a língua indo-europeia.
     As tentativas de classificação dos povos germânicos remontam aos autores antigos, como Plínio, Estrabão e Tácito, que se basearam na procedência geográfica ou em seus usos e costumes para distingui-los. A classificação com base em critérios linguísticos somente surgiu no século XIX.
     Atualmente, os linguistas separam os germanos em três grandes grupos: germânicos continentais (francos, alamanos, bávaros, lombardos), germânicos do mar do Norte (anglo-saxões e frísios) e godos-escandinavos (ostrogodos, visigodos, burgúndios e vândalos).

O mundo germânico
     A guerra era a principal fonte de obtenção de status e riqueza para os povos germânicos. Os chefes militares, em particular, eram os grandes beneficiados com as pilhagens, pois ficavam com a maior parte das terras conquistadas. Hierarquizados com base na função e no desempenho militar, os germanos desenvolveram notáveis técnicas marciais e se especializaram na fabricação de armas: lanças, machados e longas espadas de dois gumes. Durante o combate, o chefe de cada grupo liderava um séquito de jovens guerreiros (comítatus) unidos a ele por um juramento de fidelidade.
     Quando derrotados, os guerreiros deixavam-se matar no próprio campo de batalha ou então se entrincheiravam nas fortalezas da floresta para aguardar ocasião mais propícia para um novo ataque. O tempo das colheitas, no entanto, interrompia as guerras.
     Costumavam instalar-se em clareiras e desmatavam as áreas ao redor usando pesadas charruas (arados). Nas áreas de cultivo, plantavam trigo, aveia e linho, a cada dois ou três anos, e destinavam o campo em pousio para os cavalos, bois e ovelhas, bens da comunidade. Apesar da existência da propriedade individual, a exploração da terra era coletiva. O trabalho ficava ao encargo dos escravos e das mulheres, se os homens estivessem em combate.
     A família era a base da organização social e guardava certas semelhanças com a família romana. O pai detinha total autoridade sobre os filhos e a esposa era considerada a defensora da tradição familiar. A cerimônia de casamento simbolizava a solidez da instituição. O marido apresentava aos pais da jovem o dote de sua futura esposa, armas e animais, bens que ela transmitiria aos seus filhos. A mulher, por sua vez, presenteava o marido com uma arma para demonstrar sua disposição a compartilhar os perigos da vida de um guerreiro.
     O adultério feminino era uma falta gravíssima. Quando a infidelidade não resultava na morte da mulher casada, a esposa era repudiada pelo companheiro em presença de seus pais. O marido raspava seus cabelos e, em seguida, a expulsava de casa.

Os bárbaros na historiografia
     No período do Renascimento, os pensadores consideraram que na Antiguidade estavam os grandes exemplos da história da humanidade e revalorizaram a cultura clássica. Em contra partida, condenaram a
Idade Média, chamando-a de "Idade das Trevas". Isso para indicar a decadência cultural provocada pelos invasores "bárbaros", considerados ignorantes.
     Essa visão negativa foi rompida no século XIX. O romantismo resgatou a Idade Média e os povos bárbaros passaram a ser vistos como o "sopro de vitalidade" que arejou o decadente Império Romano. As invasões deixaram de ser uma catástrofe repentina, incontrolável, e passaram a ser entendidas como um fluxo migratório pacífico, visando ao assentamento. O historiador francês Ferdinand Lot (1866-1952) atribuiu o fim do Império a fatores internos e não à "avalanche bárbara".
     Hoje, a historiografia considera que o fim do Império deve ser atribuído a causas internas e externas. A Idade Média Ocidental já não é mais vista como um período obscuro da história da humanidade. É entendida como período histórico formado por três grandes matrizes culturais: a céltico-germânica, a greco-romana e a judaico-cristã. Denominam-se os cinco primeiros séculos da Idade Média de Alta Idade Média (século V a X) e os cinco seguintes de Baixa Idade Média (século XI a XV).

Arianismo e nestorianismo
     Uma boa parte dos povos germânicos se converteu ao cristianismo, a partir do século IV, doutrinada por monges itinerantes. O mais famoso foi Úlfila, considerado o grande doutrinador dos ostrogodos e visigodos. Úlfila inventou o alfabeto gótico, utilizando os símbolos rúnicos criados pelos germanos, e traduziu o Novo Testamento. Mas a versão do cristianismo propagada entre os gados foi o arianismo, que nada tem a ver com questões raciais. A palavra deriva de Arius (286-336), bispo de Alexandria, no Egito, que defendia que Deus, eterno e criador, era diferente de Jesus, criatura de Deus, portanto sem o caráter de divindade. Arius discordava, assim, do mistério da Santíssima Trindade, que estabelecia a unicidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
     Tal doutrina foi condenada pelo Concílio de Niceia, o primeiro concílio ecumênico da Igreja cristã, realizado no ano de 325, e novamente pelo Concílio de Constantinopla, em 381.
     No século seguinte, outra doutrina condenada foi o chamado nestorianismo, nome derivado do bispo de Constantinopla, Nestório, que chegou a afirmar a natureza humana de Cristo. Para Nestório, somente Deus, o Pai, era divino, não o Filho. Os concílios de Éfeso (431) e da Calcedônia (451) condenaram com veemência essa doutrina. Ao contrário do arianismo, o nestorianismo somente se difundiu no Oriente. Os debates provocados por Arius e Nestório nos séculos IV e V sobre a natureza de Jesus integraram o que, na história do cristianismo, é chamado de Questão cristológica.

A civilização bizantina
A reaproximação entre católicos e ortodoxos
     “A declaração conjunta de Bento XVI e Bartolomeu I é um dos momentos mais significativos da viagem do Sumo Pontífice à Turquia no âmbito do diálogo entre religiões e para a unidade dos cristãos.
     Os líderes religiosos assinaram o documento depois de um encontro na Igreja de São Jorge, em Fanar, sede do patriarcado ortodoxo, no final de uma liturgia bizantina, que contou com a participação de Bento XVI.
     No documento, Bento XVI e Bartolomeu I asseguram que 'apoiam a direção da formação da União Europeia', mas sublinham que os 'seus precursores não podem deixar de ter em conta os direitos inalienáveis da pessoa, em especial da liberdade religiosa'.
     Também apelam para a proteção das raízes cristãs na Europa perante a possibilidade da existência de outras religiões, numa clara referência à possível adesão de países não-cristãos à União Europeia, como será o caso da Turquia. [...]
     Bento XVI e Bartolomeu I também recordaram os lugares do mundo onde vivem cristãos e existem guerras, fome e terrorismo, assim como as diferentes formas de exploração dos pobres, imigrantes, mulheres e crianças, qualificando de 'ofensa contra Deus e a humanidade' a morte de inocentes em nome da religião. [...]
     A declaração conjunta serviu também para renovar o compromisso entre católicos e ortodoxos para continuar o caminho da unidade, mas não houve qualquer avanço na questão de aproximar as suas doutrinas.”
(Agência Lusa, 30 novo 2006. Disponível em <www.rtp.pt>.)

Uma civilização, muitas etnias.
     "É essencial lembrar que 'bizantino' não tem conotação étnica, mas civilizacional, correspondendo aos indivíduos de fala grega (ainda que seu idioma materno fosse outro) e religião cristã ortodoxa. Assim, tal grupo de indivíduos (gregos, egípcios, asiáticos, semitas, eslavos) variou ao longo da história bizantina conforme as alterações territoriais e/ou religiosas ocorridas no império. [...] De fato o termo 'bizantino' foi vulgarizado apenas a partir do século XVI, depois do desenvolvimento do império, que em vida se via como herdeiro e continuador do Império Romano.
     Num certo sentido isso era verdadeiro, pois aquilo que se tornou conhecido por Império Bizantino era na origem o Império Romano do Oriente (Grécia, Egito, Síria-Palestina, Mesopotâmia, Ásia Menor). E realmente, como Roma, Bizâncio uniu, através de uma língua e uma determinada maneira de sentir e de pensar, povos que nada tinham em comum entre si. Como os antigos gregos e romanos, os bizantinos consideravam-se os únicos habitantes do mundo civilizado, rotulando de bárbaros todos os que não partilhavam de sua cultura. [...] Por isso mesmo suas relações com o Ocidente medieval sempre foram difíceis. [...]”
(FRANCO JÚNIOR, Hilário; ANDRADE FILHO, Ruy de Oliveira O Império Bizantino. São Paulo: Brasiliense, 1994.)

A Igreja Ortodoxa
     A Igreja Ortodoxa resultou da ruptura com a Igreja de Roma, em 1054. Até ocorrer o Cisma, duas grandes tradições conviviam no interior do cristianismo: a latina, no Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e a bizantina, no Império Romano do Oriente, sediada em Constantinopla (antiga Bizâncio e atual Istambul, na Turquia).
     A Igreja Ortodoxa adota os mesmos sacramentos da Igreja Católica. No entanto, os rituais ortodoxos são cantados sem o acompanhamento de instrumentos musicais e as imagens esculpidas de santos são proibidas, exceto o crucifixo e os ícones sagrados.
     Os ortodoxos não admitem o conceito de infalibilidade do papa e do purgatório, lugar intermediário entre o Céu, reservado aos crentes, e o Inferno, destinado aos pagãos. Também rejeitam a à doutrina católica da Imaculada Conceição segundo a qual Maria teria nascido sem pecado e concebido seu filho virgem. De acordo com os ortodoxos, esse dogma não faz parte da narrativa bíblica e contraria a doutrina tradicional do pecado original.

A culinária bizantina
A alimentação dos bizantinos era diversificada e criativa. Os hábitos alimentares do Império Bizantino influenciaram tanto as civilizações ocidentais quanto as orientais.
     "Os livros antigos de cozinha bizantina são raros. Os conhecimentos que chegam até os dias de hoje se baseiam, sobretudo, nas anotações encontradas nos diversos relatórios diplomáticos ou comerciais e biografias das famílias que se sucederam no trono de Constantinopla. [...]
     Em sua obra sobre a vida cotidiana em Bizâncio, afirma Talbot Rice que a concepção culinária dos bizantinos estava mais próxima dos dias de hoje que da Europa medieval, pois faziam três refeições por dia: café da manhã, almoço e jantar. [...] A refeição terminava com uma sobremesa. [...]
     Os bizantinos foram também inovadores nas artes da mesa. Ao contrário dos romanos, não comiam recostados ou deitados e sim sentados, suas mesas eram bem-postas, com serviços e toalhas impecáveis, inventaram o uso cotidiano do garfo, o píron, cujo costume levaram a Veneza e que de ganhou a Europa. Foram criadores de requintes como os fios de ovos; adaptaram os macarons (doce cuja massa parece um suspiro, feito com farinha de amêndoas), antigas iguarias ligadas aos ritos dos deuses, tornando-os requintados; souberam cozinhar ao ponto, foram mestres na arte de picar a carne, temperá-Ia, assim como na de empaná-Ias.
     Apreciavam muito as saladas, principalmente a de alfaces e de outras folhas, como as amargas endívias, que consumiam temperadas com azeite de oliva, vinagre e salpicadas de ervas aromáticas; comiam couves e aspargos silvestres, aos quais acrescentavam louro ao azeite. Graças à grande fertilidade das áreas costeiras, tinham acesso a muitos outros legumes, com os quais faziam também purês, condimentados com especiarias, e a proximidade dos celeiros de trigo do Egito e da Sicília permitia que abusassem dos pães e dos mingaus, que eram aromatizados com mel, nardo (erva aromática asiática), canela e vinho tinto do Peloponeso. [...]
     Uma receita de arroz muito usada em Constantinopla era aromatizar os grãos cozidos com cravo, canela, louro e sementes de cardamomo (especiaria de sabor adocicado e picante), ou então cozê-Io com amêndoas e passas que vinham de Zara, no Adriático [...] Preferiam carnes tenras de animais jovens, cordeiros, cabritos, e usavam o espeto para assá-Ios. Como os gregos e os romanos, comiam com abundância os leitões, um tabu entre as populações semitas. [...]
     Toda a transformação das cozinhas locais e regionais [...] se deve às caravanas que partiam de Constantinopla para a índia e a China, e vice-versa, não levando apenas mercadorias, mas também desenvolvendo um grande intercâmbio de tradições culturais nas quais as receitas culinárias, muitas delas bizantinas, outras retornando aos seus lugares de origem com reformulações, geravam o intercâmbio de boas comidas.”
(CAMARGO-MORO, Fernanda de. A ponte das turquesas: Bizâncio-Constantinopla-Istambul. São Paulo: Record, 2005.)

A civilização Islâmica
O Islã no Brasil
     "Cinco vezes ao dia, os olhos ultrapassam o concreto de ruas irregulares, carentes de esgoto e de cidadania, e buscam Meca, no outro lado do mundo. É longe e, para a maioria dos brasileiros, exótico. Para homens como Honerê, Malik e Sharif, é o mais perto que conseguiram chegar de si mesmos. Eles já foram Carlos, Paulo e Ridson. Converteram-se ao Islã e forjaram uma nova identidade. São pobres, são negros e, agora, são muçulmanos. [...] Homens como eles têm divulgado o Islã nas periferias do país, especialmente em São Paulo, como instrumento de transformação política. [...]
     Em São Paulo, estima-se em centenas o número de brasileiros convertidos nas periferias nos últimos anos. No país, chegariam aos milhares. O número total de muçulmanos no Brasil é confuso. Pelo censo de 2000, haveria pouco mais de 27 mil adeptos. Pelas entidades islâmicas, o número varia entre 700 mil e 3 milhões. A diferença é um abismo que torna a presença do Islã no Brasil uma incógnita. [...]
     O muçulmano Feres Fares, divulgador fervoroso do islamismo, tem viajado pelo Brasil para fazer um levantamento das mesquitas e mussalas (espécie de capela). Ele apresenta dados impressionantes. Nos últimos oito anos, o número de locais de oração teria quase quadruplicado no país: de 32, em 2000, para 127, em 2008. Surgiram mesquitas até mesmo em estados do Norte, como Amapá, Amazonas e Roraima.”
(BRUM, Eliane. Islã cresce na periferia das cidades do Brasil. Época, n. 559,fev. 2009.)

     Com mais de 1,3 bilhão de adeptos, o Islã é a crença que mais cresce no mundo. Já predomina no Oriente Médio e em vastas regiões da Ásia e da África e ganha muitos seguidores também na Europa, nos Estados Unidos e nas repúblicas da ex-União Soviética. Estima-se que, no decorrer do século XXI, vai se tomar o culto mais difundido no planeta.

Árabes e muçulmanos
     Nem todo árabe é muçulmano, e nem todo muçulmano é árabe, embora Maomé e seus primeiros seguidores tivessem nascido na Arábia e o Corão tenha sido escrito em árabe. Árabes são hoje os habitantes de países de língua e cultura árabes, originárias da Península Arábica, enquanto a palavra muçulmano designa os seguidores do Islã. Por essa razão, os dois termos não devem ser confundidos. Existem populações muçulmanas no continente africano, especialmente no norte da África, no sudeste asiático e também em locais como a índia, os Estados Unidos e o Brasil.

Alá: crença fundamental do islamismo
     No livro As grandes religiões do mundo, o historiador francês Jean Delumeau explica o significado de algumas palavras-chave do islamismo. A palavra muçulmano, por exemplo, deriva do árabe muslim,
particípio do verbo aslama, cujo significado é "tornar-se crente", "submeter-se totalmente à vontade de Alá". Daí os termos muçulmano/muslim e Islã/Aslama. Os muçulmanos também são chamados de maometanos, numa alusão ao nome do profeta Maomé, mas esta é uma visão ocidental. Ou, ainda, sarracenos, em razão da crença ocidental de que os árabes não descendiam de Sara, mulher de Abraão, mas de sua concubina, Hagar, mãe de Ismael, considerado ancestral dos árabes. (A palavra sarraceno tem origem na expressão, em latim, sine Sara, sem Sara, sugerindo que a linhagem dos árabes era bastarda.) Mas o essencial é a profissão de fé do islamismo: "Para o muçulmano, Alá é o único Deus".

As características da nova religião
     As revelações que Alá teria feito a Maomé foram contadas pelo profeta aos seus seguidores, que as teriam memorizado e anotado. A compilação dessas revelações data de 653, aproximadamente, e foi estabelecida no Corão ou Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. Outro livro que contém leis islâmicas e feitos de Maomé é a Suna, composto com base nas tradições das hadiths, narrativas recolhidas dos seguidores do profeta.
     O Alcorão e a Suna fornecem a base das cinco regras fundamentais da crença muçulmana, conhecidas como os pilares do islã. O primeiro deles é realizar o testemunho oral de que "só há um Deus, e Maomé é o seu profeta". O segundo pilar é o cumprimento das cinco orações diárias. O terceiro determina que todo muçulmano deve doar uma parte dos seus ganhos para obras de caridade. O quarto pilar é realizar o jejum do amanhecer até o anoitecer durante todo o Ramadã. Por fim, o quinto pilar do islã é fazer a peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida, se possível.
     Em muitos países islâmicos, como o Irã, não há separação entre a religião e o Estado. Isso significa que os preceitos religiosos, estabelecidos no Alcorão e na Suna, servem de base para as leis que regem o funcionamento da vida pública e da vida privada. O código de leis do islã, a charia, regula os aspectos políticos, econômicos e sociais, muitas vezes influenciando questões familiares, sexuais e até mesmo os negócios. Algumas leis da charia foram estabelecidas diretamente por Deus, como a proibição de consumir bebidas alcoólicas. Por isso, são universais e atemporais.

O Ramadã
     No calendário islâmico, que é lunar, o mês do Ramadã pode ter 29 ou 30 dias. Ele equivale ao período em que Deus teria revelado a Maomé as escrituras sagradas. A tradição determina, durante o Ramadã, um período de jejum e meditação para purificar o fiel e redimi-lo de seus pecados.
     "No Ramadã, o muçulmano deve se abster de água, comida, sexo, desavenças, intrigas e tudo que possa desagradar os ensinamentos de Alá. Esse período vai do alvorecer ao crepúsculo, quando se quebra o jejum. O período tem por objetivo ensinar aos muçulmanos a disciplina, boas ações e a caridade, bem mais do que em qualquer outro mês do ano. A abstenção da comida e bebida nada adianta sem lapidar sua conduta e sua paciência e sem deixar de lado as mentiras e imoralidades", diz [...] o xeique Armando Hussein Saleh, da Mesquita Brasil, em São Paulo, e coordenador do Grupo de Estudo Islâmico Brasileiro."
(Disponível em: http://g1.globo.com)

Hégira
     Deslocamento de Maomé e seus seguidores da cidade de Meca para Yatreb (Medina). As gerações posteriores a Maomé deram a esse episódio o significado não apenas de fuga, mas de migração para um local seguro, para se proteger. Nos séculos seguintes, passaria a significar o abandono de uma comunidade pagã e a escolha de outra fundada nos preceitos da religião islâmica. A Hégira marca o início do calendário muçulmano, instituído no ano 622 do calendário cristão.

Sunitas contra xiitas
     O historiador Robert Mantram, um dos maiores especialistas na história da expansão islâmica, sublinha que a disputa política travada após a morte de Maomé deu origem às duas principais ramificações do islamismo: sunitas e xiitas.
     Os sunitas não encaravam o califa nem como profeta nem como intérprete infalível da fé, mas como um chefe cujo dever era manter a paz e a justiça na comunidade. Era consenso que o califa devia pertencer ao grupo dos coraixitas, a tribo de Maomé, dominante em Meca.
     O termo sunita deriva de Sunna, coleção de "palavras e atos" atribuídos a Maomé e posteriormente compilados em livro complementar ao Corão.
     Os xiitas, por sua vez, diziam que a legítima sucessão do profeta cabia aos descendentes de seu genro, Ali, com sua filha Fátima. O próprio termo xiita provém de Shiat Ali, que significa "os partidários de Ali".
     Os xiitas defendiam que a autoridade máxima do Islã deveria caber aos imãs, dirigentes espirituais da comunidade, e não aos califas.
     Atualmente, os sunitas são ampla maioria no mundo islâmico, alcançando quase 90% dos seguidores de Alá.

Xiitas e o fundamentalismo islâmico
     O termo xiita foi popularizado após a Revolução Iraniana de 1979. Os xiitas são, na visão do Ocidente, associados ao fundamentalismo e ao extremismo religioso. Mas isso não é correto.
     Os fundamentalistas são pessoas que defendem um retorno aos fundamentos da religião. Ser fundamentalista não significa, necessariamente, ser extremista.
     Nem todos os grupos islâmicos radicais têm origem xiita. A AI Qaeda, acusada de ser a responsável pelos atentados aos Estados Unidos em 2001, por exemplo, é de origem sunita, assim como o Talebã, que governou o Afeganistão de 1996 até a intervenção norte-americana, seis anos mais tarde. Um dos grupos xiitas mais famosos da atualidade é o Hezbollah, do Líbano. Os xiitas são maioria em países como o Irã, o Iraque, o Azerbaidjão, os Emirados Árabes Unidos, entre outros.

Jihad: uma grande controvérsia da atualidade
     Um dos aspectos do islamismo mais controvertidos atualmente é o conceito de jihad, sobretudo depois dos atentados do grupo AI Qaeda contra os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001. A imprensa ocidental, ao condenar o ato terrorista, estendeu muitas vezes essa condenação ao conjunto do islamismo, na medida em que associou a religião de Maomé ao princípio do jihad, fazendo dele um sinônimo de "guerra santa" e interpretando esta última como um sentimento de ódio ao mundo cristão ocidental. No entanto, se é correto dizer que o jihad é um poderoso complemento aos "pilares do Islã", ele não se resume à ideia de "guerra santa". Significa, antes de tudo, uma exortação para o muçulmano seguir o caminho de Alá. A expansão das fronteiras do Islã por meio da guerra é um dos significados do jihad, mas não o único, nem tem a ver com um permanente sentimento de ódio ao Ocidente cristão.

O Alcorão: o livro sagrado dos muçulmanos
     O Alcorão ou Corão teria sido revelado por Deus ao profeta Maomé ao longo de 22 anos. Ele narra a origem do universo e dos homens e sistematiza as leis morais e sociais islâmicas, bem como os deveres e os direitos dos fiéis.
Abaixo alguns trechos do Alcorão que se referem especificamente à posição das mulheres na sociedade islâmica.
     "1. Ó humanos, temei a vosso Senhor, que vos criou de um só ser, do qual criou a sua companheira e, de ambos, fez descender inúmeros homens e mulheres. [...]
     3. Se temerdes ser injustos no trato com os órfãos, podereis desposar duas, três ou quatro das que vos aprouver, entre as mulheres. Mas, se temerdes não poder ser equitativos para com elas, casai, então, com uma só, ou conformai-vos com as que as vossas mãos direitas possuem. Isso é o mais adequado, para evitar que cometais injustiças. [...]
     7. Aos filhos varões corresponde uma parte do que tenham deixado os seus pais e parentes. Às mulheres também corresponde uma parte do que tenham deixado os pais e parentes, quer seja pouca ou muita - uma quantia obrigatória. [...]
     15. Quanto àquelas, dentre vossas mulheres, que tenham incorrido em adultério, apelai para quatro testemunhas, dentre os vossos e, se estas o confirmarem, confinai-as em suas casas, até que lhes chegue a morte ou que Alá lhes trace um novo destino.
     16. E àqueles, dentre vós, que o cometerem (homens e mulheres), puni--os; porém, caso se arrependam e se corrijam, deixai-os tranquilos, porque Alá é Remissório, Misericordiosíssimo. [...]
     34. Os homens são os protetores das mulheres, porque Alá dotou uns com mais (força) do que as outras, e pelo sustento do seu pecúlio. As boas esposas são as devotas, que guardam, na ausência (do marido), o que Alá ordenou que fosse guardado. Quanto àquelas de quem constatais rebeldia, admoestai-as (na primeira vez), abandonai os seus leitos (na segunda vez) e castigai-as (na terceira vez); porém, se vos obedecerem, não procureis meios (escusos) contra elas. Sabei que Alá é Excelso, Magnânimo. [...]
     21. Entre os seus sinais está o de haver-vos criado companheiras da vossa mesma espécie, para encontrardes repouso nelas; e colocou amor e piedade entre vós. [...]"
(4ª Surata,1, 3, 7,15-16,34; 30' Surata,21. O significado dos versículos do Alcorão sagrado: versão portuguesa diretamente do árabe. São Paulo: MarsaM,2004.)

O que o Alcorão estabelece sobre o papel das mulheres na sociedade? Lendo esses trechos, percebemos que, em alguns aspectos, o islamismo coincide com a tradição bíblica ao subordinar as mulheres ao comando dos homens. Em outros, porém, notamos o reconhecimento de alguns direitos das mulheres, como o direito à herança e o de serem tratadas com amor e companheirismo por seus maridos. 

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O que foi o Feudalismo?
     Em fins do século IX, ocorreram novas invasões na Europa ocidental, sobretudo de vikings ou normandos (ao norte), húngaros (a leste) e sarracenos (na península Ibérica e ao sul da península Itálica). Essa nova onda de invasões, somada à realização e à descentralização política, propiciaram a formação do feudalismo.
     Grande parte das características do mundo feudal, entretanto, já estava presente no Império Carolíngio: as terras concedidas (condado, marca, ducado) em forma de benefício (feudo) deram origem aos senhores feudais. Alojados em castelos geralmente situados em terrenos elevados, os senhores detinham o monopólio da função militar e exerciam, por direito, amplos poderes sobre a população camponesa.
     Desde o século IV, homens e mulheres procuravam o campo para fugir das invasões, esvaziando as cidades, o que gerou um processo de ruralização. Em busca de proteção, colocavam-se à mercê dos guerreiros, que os usavam para os trabalhos agrícolas nas terras onde haviam se instalado. Formava-se, assim, o campesinato medieval.
     O regime senhorial chegou a contar com diversos tipos de trabalhadores: escravos, homens livres, ex-escravos e até uns poucos assalariados. A consolidação desse regime acabou nivelando a população camponesa, no século XI, na mesma condição: eram todos servos.

     "O feudalismo é o conjunto de laços pessoais que unem entre si, hierarquicamente, os membros das camadas dominantes da sociedade. Tais laços apoiam-se numa base 'real': o benefício que o senhor concede a seu vassalo em troca de um certo número de serviços e de um juramento de fidelidade. Em sentido estrito, o feudalismo é a homenagem e o feudo"
(LE GOFF, Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Bauru: Edusc, 2005.Coleção História)

Feudo
     "A palavra deriva do germânico fehu, 'gado', com o sentido de 'um bem dado em troca de algo'. Inicialmente, no final do século IX, o feudo era dado pelo rei em troca de serviços prestados à monarquia (guerra, administração). A partir do final do século XI, o feudo tornou-se um bem privado concedido em troca de serviços privados. Essa concessão (terra, dinheiro, direitos diversos) era feita por um nobre, intitulado senhor, a outro nobre, chamado vassalo, em troca essencialmente de serviço militar."
(FRANCO Jr., Hilário. Idade Média: nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 1986.)
As três ordens do feudalismo, segundo um monge medieval
     Usando a metáfora do carneiro, do boi e dos cães, Eadmer da Cantuária, monge beneditino, descreveu, no século XI, as três ordens da sociedade medieval:
     “A razão dos carneiros é fornecer leite e lã; a dos bois é lavrar a terra; e a dos cães é defender os carneiros e os bois dos ataques dos lobos. Se cada uma destas espécies de animais cumprir a sua missão, Deus irá protegê-las. Deste modo, fez ordens, que instituiu em vista das diversas missões a realizar neste mundo. Instituiu uns – os clérigos e os monges - para que rezassem pelos outros e, plenos de doçura, como as ovelhas, sobre eles derramassem o leite da pregação e com a lã dos bons exemplos lhes inspirassem um ardente amor a Deus. Instituiu os camponeses para que eles - como fazem os bois-, com o seu trabalho assegurassem a sua própria subsistência e a dos outros. A outros, por fim - os guerreiros-, instituiu-os para que mostrassem a força na medida do necessário e para que defendessem dos inimigos, semelhantes a lobos, os que oram e os que cultivam a terra.
(LE GOFF,Jacques. A civilização do Ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984.)

Suserania e vassalagem
     Na Idade Média, um mesmo cavaleiro podia ser vassalo de um e suserano de outro cavaleiro. O vassalo de um vassalo de determinado cavaleiro também era vassalo do mesmo cavaleiro. Mas como funcionava o sistema se um cavaleiro fosse vassalo de dois suseranos que entravam em guerra? Nesse caso, prevalecia o princípio da chamada homenagem lígia: a primeira homenagem prestada por um vassalo a um suserano.
     No caso de conflito entre cavaleiros que exerciam suserania sobre o mesmo vassalo, a tradição feudal estabelecia que a fidelidade devia ser dada ao primeiro suserano daquele vassalo. Os grandes suseranos eram aqueles que possuíam vários vassalos, que, por sua vez, eram suseranos de outros vassalos.

Uma cerimônia de vassalagem
     "Aos 7 dos idos de abril, quinta-feira, foram prestadas as homenagens ao conde; o que foi cumprido segundo as formas determinadas para prestação de fé e de fidelidade, segundo a ordem seguinte.
     Em primeiro lugar, eles fizeram homenagem assim: o conde perguntou ao futuro vassalo se queria tomar-se seu homem sem reserva, e este respondeu:
- 'Quero-o', - depois, com as mãos apertadas entre as do conde, aliaram-se por um beijo.
     Em segundo lugar, aquele que tinha feito homenagem empenhou a sua fé [...] e, em terceiro lugar, ele jurou isto sobre as relíquias dos santos.
     Em seguida, com a vara que tinha na mão, o conde deu-Ihes investidura (a posse simbólica do feudo), a todos que acabavam de prestar-lhe homenagem, de prometer-lhe fidelidade e de prestar-lhe juramento.”
(BRUGES, Gilberto de. História da morte de Carlos, o Bom, conde de Flandres. ln: FREITAS, Gustavo de.
900 textos e documentos de História. Lisboa: Plátano, 1977.)

Duques, condes, marqueses e barões
     Muitos títulos medievais de nobreza se originaram do exercício de funções públicas confiadas a certos indivíduos pelo poder real.
     O dux romano era um alto comandante militar encarregado da defesa de uma região. O duque medieval exercia a mesma função, atribuída a ele pelo rei. Depois ganhou autonomia e tornou-se, em muitos casos, tão poderoso quanto o soberano.
     O título de conde (do latim comes) designava um companheiro do rei, isto é, um integrante civil ou militar da casa real, e era atribuído a funcionários. Mais tarde o título tornou-se hereditário, concedido à nobreza territorial.
     O marquês era um funcionário encarregado de defender uma marca, região de fronteira no Império
Carolíngio. Assim, além dos marqueses, existiram "duques da marca" e "condes da marca".
     Já o título de barão não remetia a uma função pública, mas a uma relação feudal. Barão era todo nobre que havia recebido seu feudo diretamente do rei. Depois, o título passou a designar os detentores de feudos importantes.

Os laços sociais
Vivendo em um período marcado pela insegurança, o homem medieval estabeleceu algumas formas de relações pessoais para proteger-se.
     "Diante da fraqueza do poder público e da necessidade de segurança, desenvolveram-se as relações pessoais, diretas, sem intermediação do Estado. Estreitaram-se os laços de sangue, as relações dentro das linhagens, grupos cuja solidariedade podia proteger melhor os indivíduos dos perigos de fora. De acordo
com essa forma de pensar, a morte violenta de uma pessoa atingia todo o grupo, o que punha em ação a faide, ‘a vingança dos parentes’. Ou seja, na falta de instituições públicas que pudessem punir o agressor, os amigos e parentes da vítima faziam justiça pelas próprias mãos. Dentro do mesmo espírito, pelo velho costume germânico do wergeld, 'o preço do homem', a culpa de um indivíduo comprometia toda a sua família e devia ser resgatada por meio de um pagamento à família da pessoa ofendida ou prejudicada. [...]
     Esse forte sentimento de parentesco, tanto no seio da aristocracia quanto no do campesinato, era contudo insuficiente para as necessidades sociais. Daí a formação de vínculos para fora dos laços de sangue. [...]
     Como os laços familiares não bastavam, criaram-se laços artificiais, uns ligando homens livres entre si, outros ligando homens livres a dependentes. Este último - relação de nobre-camponês - baseava-se na desigualdade, estabelecendo, como já vimos, complexos vínculos econômicos, políticos e religiosos: o senhor era um misto de protetor e propiciador. A relação entre nobres, baseada na igualdade, fundamentava-se no contrato feudo-vassálico. [...]
     Quando alguém se tornava 'moço' (vassalo) de um ancião (senior) estabelecia-se um pseudoparentesco entre filho e pai. Entre eles, como nas relações biológicas entre pais e filhos, devia haver respeito e fidelidade: um devia servir, outro sustentar:'
(FRANCO JÚNIOR, Hilário. Feudalismo: uma sociedade religiosa, guerreira e camponesa. São Paulo: Moderna, 1999.)

Fonte:
ALVES, Alexandre e OLIVEIRA, Letícia Fagundes de. Conexões com a História. 1ª ed. - São Paulo, Moderna, 2010.
BRAICK, Patrícia e Ramos. MATA, Myriam Becho. História: das cavernas ao terceiro milênio. 2ª ed. - São Paulo, Moderna, 2010.
VAINFA, Ronaldo... [et al.] História. São Paulo, Saraiva, 2010.

Um comentário:

  1. Eu fiz a maquete do manso senhorial igual a da imagem que tem aqui, da muito trabalho!!! alem disto a gente gastou mito dinheiro com essa maquete mas valeu apena fico igualzinha!!!

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